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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Espelho meu

 

“Foi necessário tomar a grave decisão de fazer com que esse povo desaparecesse da face da terra.” 
(Heinrich Himmler, citado em “Espelho do ocidente”, de Jean-Louis Vullierme)

 

Simplificações sobre o momento político pelo qual passamos é o que mais se vê boiando no mar de informações que nos envolve. Seria até agradável poder discorrer com frivolidade sobre os episódios que dia a dia brotam dos jornais, das redes sociais, dos grupos de mensagem, etc. Seria bom poder escrever superficialmente sobre os culpados, os grandes, os máximos culpados pela treva que aparentemente ameaça nos tragar a todos. Os políticos. Gastam-se litros e litros de tinta - agora bits e bits de informação - dissecando personalidades políticas desvairadas que levaram povos inteiros ao abismo, mapeando e destrinchando suas biografias, à procura da solução final, em busca da razão de fazerem o que fazem, e finalmente cravando-lhes a culpa total por tudo que nos acontece.

Mas, não se trata deles realmente. Não é deles que precisamos falar. Não é sobre eles que assenta a maior culpa, afinal. Esses homens, se é que podemos chamá-los assim - pois ao se tornarem voluntariamente símbolos de algo, automaticamente deixam de ser simples humanos -, não são mais do que extensões nossas. Não são mais do que projeções de nossas ânsias, de nossos medos. Esses homens não são mais do que pontas de lança do contraditório exército de um homem só. Precisamos falar de nós. É urgente que nos examinemos. Já passa da hora de olhar o espelho.

Definitivamente não somos melhores do que éramos há cem anos. Não nos tornamos mais sábios porque estudamos mais. Não nos tornamos mais tolerantes porque conhecemos outras culturas. Não nos tornamos mais universalistas com outros povos porque aprendemos facilmente um idioma estrangeiro. O mundo moderno não nos tornou mais nem menos do que já éramos na época do holocausto judeu. Há alguns dias na Itália, berço do fascismo, um político de escol incentivou o ódio racial e a xenofobia aberta e publicamente. Ele foi um político eleito por milhões de pessoas como nós. Isso não nos diz nada!? Uma das maiores decepções de quem se interessa pelo que aconteceu na Alemanha de Hitler é descobrir que, por mais que tenha feito muita trapaça no meio do caminho, ele chegou ao poder por vias democráticas. Adolf Hitler foi eleito democraticamente por pessoas como nós. Isso não nos diz nada!? Aqui no Brasil a florescente ultradireita está tentando enxertar o ódio político contra alguns grupos de esquerda. Serão os petistas os novos bolcheviques dos trópicos? Não se questiona aqui o modelo democrático, que pode ser tão ruim quanto qualquer outro. O que está em jogo é o nosso modelo de realidade e por quais meios escolhemos manifestá-lo.

Quem são os que se dizem conservadores, moralistas, “cidadãos de bem”? E aqueles que  pretendem revolucionar as relações, minar confianças ancestrais, implodir vínculos arraigados pela tradição? Todos esses são os que irrefletidamente encamparam a ideia de que o seu modelo de realidade, o seu mundo só pode existir numa realidade ultra excludente - só podem ser felizes à custa de um inimigo a ser eliminado. Diluídos na marcha lenta de décadas, os ideais revolucionários acachapados pela realidade da vida, de tempos em tempos, dão lugar à sua contraparte conservadora. Surgem então os que pretendem manter a vida estagnada, parada no tempo e no espaço, mumificada na tradição, cristalizada e incapaz de se renovar. Tudo isso em nome de algum “deus”, pois é preciso cooptar os ingênuos, é preciso conduzir o rebanho crédulo e ao mesmo tempo útil aos “currais eleitorais” e sugar-lhes a energia preciosa em forma de sufrágio. De um lado pretendem extinguir a ideia de Deus, de outro pretendem corroê-la pela politização imoral. E nós o que fazemos? Escolhemos um lado. Escolhemos uma ideia e morremos ou matamos por ela. Quando temos vergonha de manifestar nossa estupidez, revestimos a ideia com as mais belas palavras, adicionamos justificativas de escrituras anacrônicas de outros povos, e justificamos votos dizendo que votamos em “princípios”, “não em pessoas”. E isso nos amortece a consciência. Permite que possamos expressar nossa torpeza, nossa brutalidade e nossa separatividade mais livremente. Afinal, se Deus está conosco, quem será contra nós?.. Entramos numa espiral infinita de justificativas e relativizações sem nexo, ilógica, esquizofrênica, pois a gana de mudar a realidade do outro nos sufoca. Não queremos mudar a nossa vida, queremos feito conservadores revolucionários, mudar a vida do outro para que ele se submeta a nós. E o outro? Bem, ao outro cumpre se submeter ou desaparecer.


JB Reis

sábado, 2 de abril de 2022

Entre o cão e o carcará

A eterna via crucis de um povo

Esta semana que se encerra trouxe um sinal contundente de que a república brasileira é de fato um vasto bananal administrado por proxenetas. Não precisamos repisar tudo que já foi dito sobre a última jogada suja do “Supremo Foro de São Paulo”. A manobra estapafúrdia, que surpreenderia o burocrata comunista mais cara de pau, se não livrou o ex-sindicalista mor da cadeia, tornou-o novamente elegível, reabrindo a tampa dos infernos, que pensávamos estar selada para sempre. Mas como dizem, o Brasil não é um país sério. Bolsonaro, que não soube cumprir o papel que a História lhe reservou, vê-se agora numa luta reles por sobrevivência política em que sua vitória pode ser o menor dos males.

Segundo Eduardo Bueno, em seu livro a Viagem do descobrimento, “o nome ‘Brazil’ provém do celta bress, que deu origem ao verbo inglês to bless (abençoar). “Hy Brazil”, portanto, significa ‘Terra Abençoada’”. É muito dito que o Brasil seria o “coração do mundo”, o “celeiro do planeta”. Graças à Monarquia, o Império não se pulverizou entre miríades de micronações como aconteceu com a América espanhola e o resultado foi um território sem paralelo entre latitudes privilegiadas do globo terrestre. Além da abundante água visível, o maior aquífero do planeta, o Guarani, está em solo brasileiro.

Contraponto a todo esse cenário paradisíaco, o Brasil conta com Forças Armadas que, de acordo com  autoridades no assunto, estão muito aquém de cumprir com mínima eficiência a missão de defender seu território. Materialmente sucateadas, profissionalmente desmotivadas, quantitativamente deficitárias, e atualmente em franca desestruturação por força da Lei nº13.954/19, que mostrou que só uma categoria, os oficiais, são considerados militares de primeira classe, e todo o resto é acessório, as Forças singulares não fariam frente a um inimigo mais audaz.

Bolsonaro foi o oportunista falastrão que se apoderou, ou foi “empoderado”, como o homem da direita brasileira. Uma máscara – a única que ele não se importa de usar –, que em dois anos de governo já caiu. Mas, conquanto seja um arremedo do que deveria ser, um moralizador da política (missão para a qual já se mostrou incapaz), ele ainda encarna, ou pelo menos representa, a possibilidade de ressurreição de um moribundo conservadorismo brasileiro. Há, claro, os bolsonaristas de chão de fábrica, os peões desse jogo. Estes apenas babam palavras inúteis como toda horda descerebrada. Outros, porém, mais acima no espectro, apoiam o Presidente, não por méritos dele (quais seriam, afinal?), mas porque ele poderia galvanizar um movimento conservador nacionalista, e quem sabe, conjurar um líder preparado para um futuro que parece nunca chegar.

Contra isso, contra essa possibilidade – ainda que remota – não contra Bolsonaro (ele foi um trocadilho imperdoável, mas necessário da História), mas contra a verdadeira consciência patriótica brasileira – não o teatrinho cívico dos generais – insurgem-se as potências globalistas. À testa desse aríete irrefreável, o pretensioso conquistador eurasiano, a China.

Temos então uma equação aqui, no primeiro termo: um povo moralmente combalido “de tanto ver triunfar as iniquidades”, um território que é uma mina inesgotável de recursos, um exército de papel e uma classe político/jurídica quase totalmente corrompida e de apetite insaciável por tudo o que é putrefato. No segundo termo da equação: a China comunista, ditadura de partido único; armada até os dentes; um povo praticamente todo cooptado (“cada cidadão um soldado”, Mao Zedong) e uma sanha louca por suplantar o número um do mundo.

Os negacionistas dirão que os interesses chineses são exclusivamente comerciais. Já expusemos aqui neste site o vade mecum da estratégia chinesa para este século. O livro “A Guerra além dos limites” dá um quadro geral do que seriam (e após vinte anos, vemos que estão se cumprindo à risca) as pautas imperialistas do Partidão. Ora, não é preciso ser doutor em História para ver que um Brasil desmoralizado, de juventude entorpecida, com exército sucateado, de instituições político-jurídicas carcomidas e instáveis, seja o campo ideal para fincar a bandeira vermelha. Mas, num primeiro momento, não com tanques e mísseis. Nada disso. Terras serão compradas¹, acordos comerciais serão assinados – por mãos míopes que não lerão as letras miúdas. O Brasil não é o Iraque. O Brasil é uma joia rara e delicada. Precisa ser “tratado” com jeito. Guerra cultural seria realmente teoria conspiratória? Não para a frente parlamentar Brasil-China, que, longe de alimentar nossa desconfiança sobre esse tema, está aí para nos lembrar quão importante é, durante a pandemia do vírus chinês, comemorarmos por via legal (PL 300/2021)² o ano-novo chinês.

Lula da Silva é antes de tudo um comunista. Ele e toda a gangue que o cerca. Que melhor cenário político poderia haver para o PCC do que ter na presidência da maior nação sul-americana um coidealista? Não é necessário olhar o passado, pois no Brasil até o passado é duvidoso. O futuro que nos espera, pode ser mais sombrio do que tudo que já passou. Guiado pelos nove dedos de Lula, e seguido de perto pelo tigre asiático, o Brasil poderá ser a semente daquilo que Michel Temer gravou em 1988 no § único do Art. 4º da Constituição da República, “uma comunidade latino-americana de nações”, isto é, a famosa Pátria Grande³.

Difícil neste período da quaresma cristã, não fazer um paralelo com a via crucis. Por mais que tente, por mais que repetidamente este país se erga, invariavelmente a História lhe desfere um novo golpe, cada vez mais forte, mais definitivo. O Brasil agora parece estar subindo o seu calvário, a caminho da  crucificação entre o cão e o carcará.

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https://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/senado-terras-estrangeiros/

https://diariodorio.com/deputados-e-autoridades-da-china-defendem-plei-que-inclui-ano-novo-chines-em-calendario-nacional/

https://medium.com/@loryelrocha/a-p%C3%A1tria-grande-o-foro-de-s%C3%A3o-paulo-a-banca-e-o-eurasianismo-4d7915b41c51

Os Porões do submundo


Num momento em que guerras e rumores de guerras inundam os noticiários, seria  oportuno fazer uma reflexão breve sobre as imbricações entre militarismo e política, que em última instância são os responsáveis finais pelos conflitos armados. Há atores ainda mais obscuros que atuam por trás dessa trama, mas esses dois são os mais perceptíveis a “olho nu”. No Brasil atual, demagogia, populismo e um flerte recorrente com o autoritarismo vêm protagonizando casos de uma perigosa promiscuidade entre as
 Forças Armadas e o poder político.

Numa época em que a propagação da informação é fácil e barata, palavras soltas ao vento podem se transformar em tempestades, que a História certamente porá na conta dos militares.

Equivocadamente ou talvez por calculada má fé, evoca-se o passado medieval com suas fábulas arabescas como repositório do espírito patriótico justificador das guerras. Nada mais ilusório. Segundo o historiador militar Michael E. Howard, a guerra era um negócio privativo dos reis, e, ao contrário do que os amantes de um mito inexistente teimam fazer crer, a boa economia da época ditava que o “bom cidadão deveria ser deixado em paz para construir a riqueza com que pagaria os impostos”. As guerras totais, com suas estratégias de propaganda, seus alistamentos cada vez mais invasivos, são fruto da democracia moderna e dos interesses dos grandes parasitas empresariais. Guerra e capital unidos em prol de infernizar o mundo…

Se por um lado a democracia atual olha com desdém para o passado dos reis, apresentando-se como uma evolução política, por outro lado, a guerra deixou de ser um assunto real para ser um flagelo nacional, e como tal, suportado “democraticamente” por todos, voluntários ou não, pacifistas ou não. “Assim como é em cima é embaixo”. Se no extremo da guerra a coisa é escatológica, num andar mais abaixo, não há muita diferença, e quando o militarismo se deita com a politicagem os casos de pornografia politica reinam.

Há três anos a máquina pública brasileira está infestada com mais de seis mil militares, entre ativos e inativos (os “aposentados”). Quando se ocupa as engrenagens desse sistema de maneira artificial por uma classe específica, de cima para baixo, não por decorrência de capacidades comprovadas ou mérito reconhecido, mas simplesmente por imposição política, como quem está tomando os espólios de uma guerra, o resultado é o desvirtuamento tanto da boa administração quanto da própria imagem da classe “invasora”.

Em recente diretriz ministerial a pasta da Defesa, responsável pelas três Forças singulares, baixou a “ordem do dia” para as comemorações do bicentenário da independência do Brasil. Entre tantas amenidades, que já arrancam suspiros de ufanistas saudosos e de integralistas enrustidos, há desde o direto e eficaz populismo mais vulgar do tipo “prestação de serviços de saúde [e] orientações médico-odontológicas” até a fina flor da doutrinação mais descarada como “promover apresentações em escolas assistenciais e da rede pública, seminários e exposições abertas à sociedade, com o objetivo de rememorar fatos históricos relacionados à Independência do Brasil”, passando pela “restauração de monumentos e bustos de heróis da pátria, a fim de fortalecer e valorizar o sentimento cívico da nação”. Já podemos suspeitar sob que prisma os fatos históricos serão rememorados e quais heróis serão cultuados… Em ato de virtual pré-campanha, o presidente Bolsonaro, como boa caixa de ressonância da Regência de Chumbo, fez questão de exaltar a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça brasileira como torturador em 2008, chamando-o de “‘velho amigo”…

O que um governo bastardo, cria de uma simbiose anormal entre revanchismo classista e ambição pessoal, pode ter reservado para a sociedade civil? Em discurso recente sobre eleições e apuração de votos, o presidente da República, que foi militar por quase vinte anos, afirmou de modo bastante exaltado que uma entidade incerta, à qual ele se referia como “nós”, defenderá a democracia e a liberdade, se preciso for, “com o sacrifício da própria vida”. Este trecho entre aspas é um lema conhecido dos militares pois é parte do juramento que todos eles fazem à bandeira nacional, dentro de um contexto especial, quase solene. Não é uma frase de parachoque de caminhão a ser usada como estimulação de condutas potencialmente danosas.

Sabemos o que acontece quando os governos se militarizam. A história brasileira recente é pródiga de exemplos. E quanto mais se desce pelos porões desse submundo, mais nítido fica que a “milítica”, a mistura imoral da política com as armas, é o fim da picada republicana – é bom não esquecer que a República nasceu de um golpe militar. Não se torna democrata um militar por lhe tirar a farda e emprestar-lhe um discurso demagogo. É mais fácil, e é mesmo o que se pretende, que a democracia seja engolida pelo militarismo. A militarização da sociedade, e não o contrário disso, é o que buscam os “milíticos”, este é o santo Graal dessas pessoas.

O tempo dirá qual das duas instituições sobreviverá de pé a este intercurso indesejável, a democracia ou a caserna.

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O Grande moinho de vento


Observando com os olhos da razão as últimas agitações na mídia e nas redes, poderíamos ser levados a pensar que o Brasil está numa espécie de conflagração ideológica. O Presidente da República, do alto de sua moral de filho do centrão, declarou guerra às urnas eletrônicas. As batalhas, por enquanto, têm lugar no mundo das ideias e no universo da infosfera, mas esperamos de coração que isso se desmanche no ar, pois as piores guerras são as guerras santas, as que têm um motivo “justo”, e  ‒ na moda de hoje ‒ aquelas feitas “em nome da democracia”. Mas, toda guerra tem algum lucro para quem a provoca, e quase nenhum para os idiotas úteis que pegam em armas.

O novo moinho de vento de Bolsonaro se chama “voto impresso”. Já houve vários: kit gay, cloroquina, ameaça comunista, armamentismo. Todas podem ser pautas populares legítimas, mas ele as sequestrou e fez delas seu pobre “capital” político. Sem dúvida que o cidadão comum, caso queira, deveria ter direito a auditar um ato seu que interfira na sua própria vida. Mas, esta é uma pauta tão legitimamente bolsonarista quanto a estratosfera é exclusividade dos tucanos. Novamente ressaltamos aqui o estofo moral do Presidente, ao detectar que ele não se rebelou contra o “sistema” em 2018, mas esperou ser eleito pela mesma urna que agora ataca, e tão logo sua governança destrambelhou, tirou essa “carta” da manga. Isso é administração ou bingo de quermesse?… Voto de papelzinho deveria ser a última coisa na lista de prioridades de um governo em apuros, e ainda mais de um povo combalido moralmente e arrasado materialmente pela peste chinesa. Já são milhões de desempregados, muitas empresas dando as costas ao País, e nós declaramos guerra ao império da razão, insurgindo-nos contra a cortina de fumaça bolsonarista da urna eletrônica.

Qual é o graal dessa jihad política? Um pedacinho de papel ordinário, que vai atestar para todos os fins (insondáveis, por sinal) a qual cangaceiro de gravata delegaremos o poder de nos tapear pelos próximos quatro anos. A primeira dúvida que nos vêm à cachola é quão “democrática” é a nossa democracia, a ponto de nos preocuparmos tanto com um pedaço de papel… Ela é tão democrática quanto é democrático o voto obrigatório? A nossa democracia é fruto de um golpe (antidemocrático) dado por um general cabrão, que abominava o povo como quem prefere cheiro de cavalo. Nossa democracia é a mesma que exilou o último filho ilustre, único imperador dessa terra ingrata, ao qual sobejava cultura e amor pelo País (coisa inexistente em quase todos os seus sucessores). Brigamos no Twitter ou nos fantasiamos pelas ruas aos gritos em defesa dessa democracia que, desde o ninho de onde foi parida, sempre foi uma oligarquia, sempre foi uma farsa costurada por jagunços de algibeira, ora café com leite, ora leite com café. Uma democracia que pouco tem de demos, mas muito tem de daemon.

 O Estado democrático pode ser tão invasivo e violento quanto qualquer outro, e como não temos uma sociedade alternativa, a democracia carece de válvulas de escape. Uma delas é o accountability, isto é, a capacidade de prestar contas. Quanto mais transparente aos olhos do povo, mais democrática é a democracia. Mas não se assanhe o leitor, essa transparência é fosca e o vidro está sujo. Queremos o papelzinho exatamente porque somos cidadãos de papel, filhos bastardos de um país de papel. Também porque não temos memória, porque não temos raízes profundas, porque nossa nação não foi resultado de uma fundação sólida, e vivemos repetidamente ‒ já fizemos isso antes ‒ sendo arrastados feito zumbis para a dimensão perigosa do culto à personalidade. E que personalidade…

Terminamos com o pé esquerdo. A culpa não é exclusivamente do Bolsonaro, é do PT também. Sejamos sinceros, nunca este país foi bem governado, mas depois que o proletariado petista subiu a rampa do Planalto e decidiu pegar a chave do cofre, a coisa degringolou de vez. De lá para cá, conduzir os destinos políticos da nação tornou-se mais do que tudo um espetáculo. Já não é necessário pão e circo, a fúria é suficiente, o pão a gente vê depois. Bolsonaro está seguindo a política do “quanto pior melhor” e do “quero ver o circo pegar fogo”, não só por que ele faz disso a sua yoga. Essa bêbada dança do sabre é a segunda temporada de um continuum esquerdista. Lula e sua trupe (des)governou pela cleptocracia. Bolsonaro governa (ou o que quer que seja isso que ele está fazendo), como fez Nero, pela  ignocracia.

Ao descobrirem as atrocidades de governos ditatoriais, uma das primeiras perguntas que as pessoas fazem é: “como o povo pôde permitir e ainda colaborar com elas?” Mas não se pode voltar no tempo, e mesmo as testemunhas oculares têm seus pontos cegos… As ditaduras consentidas são um primeiro passo para os regimes de exceção, e elas começam não por absurdos etnocêntricos ou apostasias escandalosas. Começam com pautas democráticas, palavras vazias, mas doces aos nossos ouvidos famintos. Quem pode ser contra Deus e armas? Quem pode ser contra família e pátria!? Afinal, quem pode ser contra o voto impresso!? E, por fim, quem não reza pela cartilha tresloucada do “mito” está contra nós? Bons tempos em que o Brasil era um país bem humorado que não se levava a sério e o candidato mais bem votado era o macaco Tião…


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sexta-feira, 25 de março de 2022

Não basta enfiar a faca, é preciso rodar

 “[O general] deve ser capaz de iludir seus oficiais e soldados por meio de relatórios e apresentações falsas e, assim, mantê-los em total ignorância.”

A Arte da guerra, de Sun Tzu



Uma das sutilezas da vida dita civilizada é poder-se matar um sujeito a crédito. Para esta modalidade de crime praticamente não há tipificação penal. Pode-se levar anos a consumar o fato. Mata-se lentamente ‒ como dito, às prestações, aos poucos. Como as tecnologias atuais dão voz a praticamente todos, é possível exercer esse tipo de esporte nefasto mesmo à distância. Com uma conexão de internet fazendo o papel de arco e muitas palavras vagas e cálculos controversos fazendo papel de flechas é possível espicaçar o alvo e atormentá-lo por raiva ou indignação, e ainda posar de bom moço. Ironia e deboche são as setas mais eficazes e certeiras. São delicados requintes de tortura pós-modernos que substituem (não perfeitamente, pois perfeito só Deus!) a gana real que os assassinos de reputação têm de exterminar, extirpar da vida social, em uma palavra feia, “matar” aqueles dos quais, por enquanto, só podem debochar e tripudiar.

Há alguns meses, em uma audiência no Congresso Nacional, um deputado questionou o comandante da Força Aérea sobre o fato de a Lei nº 13.954/19 ter “deixado soldados para trás”. Esta Lei foi promulgada sem vacilação por Jair Bolsonaro, apesar de ele saber dos prejuízos que adviriam dela. A resposta ao deputado foi que ele, o deputado, estaria enganado, que os militares da Lacuna 2001-2019 ‒ que só na FAB são no mínimo vinte mil ‒ não foram deixados para trás, e que esse “sentimento” do deputado não seria verdadeiro. O que não é verdadeiro só pode ser uma mentira. Se o deputado mente, é lá com ele. Não seria o primeiro nem o último político a mentir… Já o comandante militar, por seu turno, afirmou ter responsabilidade por “suas” tantas outras dezenas de milhares de militares, e que tal alegação do deputado seria, além de mentirosa (o que não é verdade, só pode ser mentira!), “perigosa”. Mas vinte mil militares sabidamente varridos para debaixo do tapete pelo Governo (em sua maioria eleitores de primeira hora do Presidente) não teriam condições mentais de aferir os próprios sentimentos? Estariam todos esses homens e mulheres sofrendo de alucinação coletiva? Teriam perdido a capacidade de fazer simples comparações matemáticas em suas folhas de pagamento? Isto certamente não é verdadeiro…

Mais recentemente o comandante da Marinha do Brasil deu declarações bastante objetivas sobre a reestruturação da carreira das Forças Armadas. Afirmou com toda convicção que os suboficiais teriam tido vantagens financeiras mais consideráveis, percentualmente maiores do que os oficiais. O almirante estava no seu ambiente controlado, não havia interlocução séria nem muito menos alguém para lhe contradizer. Sabemos que isso é normal no militarismo. Por outro lado, no mundo real, os comentários nas redes sociais de militares foram em geral de tom irônico, para dizer o mínimo. Alguns até já estão saindo em defesa do comandante, o que é compreensível, pois o assunto é tão intrincado, a Lei nº 13.954/19 foi tão mal costurada e seus efeitos são tão inéditos e danosos, que é realmente temerário tentar contrapor as palavras ditas na entrevista simplesmente usando números frios.

Mas algo de muito revelador jaz nas entrelinhas desses dois episódios. Um princípio, uma ideia subjacente, como um pensamento diretor que jamais é convertido em palavras, mas que conduz e delimita esses discursos, essas falas tão desconectadas da realidade. Todos estamos mais do que carecas de saber que os militares que se aposentaram entre 2001 e 2019 foram desprezados pelo governo. Este exército invisível de homens e mulheres é uma pedra no salto alto da cúpula militar. Lá em 2019, quando os veteranos da Lacuna foram rotulados pelos generais políticos como “retrovisores”, “incompetentes e preguiçosos”, os ofensores não agiram assim pelo calor do momento.

Não eram simples ofensas. Aquele tratamento aparentemente passional na verdade era fruto de estratégia. Fazia parte do mito justificador de uma lei de exclusão, de uma lei elitista que, aos olhos míopes do parlamento, fazia justiça aos militares da ativa ao mesmo tempo em que punia os veteranos “desinteressados na carreira”. Hoje, dois anos após essa fábula ter sido encenada, o descaso do governo somado à negação dos comandantes militares também não são atos desconexos e isolados, mas fazem parte da sedimentação do mito criado em torno da meritocracia, que pretende justificar a ruptura radical inaugurada pelo governo Bolsonaro.

A reserva militar não é uma aposentadoria. Não é um depósito de encostados. A reserva é um seguimento venerável e lógico do militar fardado. A farsa da meritocracia rompeu esse fio. Houve sim quebra de hierarquia. Houve sim afronta à disciplina. E estes dois pilares deveriam ser o código genético de todos os militares, sem exceção, não sós de alguns escolhidos. Mas já está estabelecido que no militarismo brasileiro pós-Bolsonaro, o antigo lema “antiguidade é posto” é artigo de museu. A imprensa especializada já sabe que um general recebeu até agora cinco mil reais a mais, enquanto um cabo recebeu três reais. Ambos na reserva. Quem é o oportunista!?

A verdade é que admitir que existe a Lacuna 2001-2019, admitir que as pensionistas foram roubadas pelo Governo, seria admitir que a Lei foi um erro, que o Presidente errou, que meia dúzia de generais, almirantes e brigadeiros erraram e que vinte mil militares incômodos estão certos. Então é preciso negar a realidade. É preciso moldar os números. É preciso caluniar, chamar de oportunista, de comunista. É preciso debochar e tripudiar, vencer pelo desprezo, até que o último veterano lacunado tenha passado desta para melhor, e o assunto esteja morto e enterrado. Enfim, não basta enfiar a faca, é preciso rodar.

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O Advogado do diabo e o Comando dos sargentos

"Nunca houve no Exército, e com ele é incompatível, essa ideia de classe no sentido moderno (sindical) de se contraporem umas às outras em busca de benefícios exclusivos. E é claríssima a nocividade de tais criações esdrúxulas nas classes armadas.”    

Pedro Aurélio de Góes Monteiro, general-de-exército e político brasileiro

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Regência de chumbo

Um vislumbre da república tutelada


“A utilização repetida e continuada das Forças Armadas em nosso país para a conquista do poder, impossível, para as forças do atraso, pela via eleitoral, é responsável por tal deterioração e consequentemente pelo declínio da disciplina que lhe é necessária, e que constitui mesmo a sua razão de ser.”

História militar brasileira, Nelson Werneck Sodré


Desde os primórdios da história do Brasil, a classe militar sempre orbitou em torno do poder. Como uma presença subliminar os militares parecem custodiar o Estado brasileiro, desde o tempo das sesmarias até os dias atuais, como fiadores de um nacionalismo desinteressado, mas necessário. A erupção republicana, sem a mínima participação de um povo, que, no século da revolução industrial, aparentava viver no medievo, foi resultado de uma intriga pessoal encabeçada por generais do exército. A partir daquele momento, os militares passariam a figurar como um Mefistófeles institucional ora a derrubar governos ora a erigir lideranças tuteladas. O que se segue é um apanhado histórico despretensioso da mais recente, mas talvez não última, investida da tropa política.

Sob uma perspectiva dos militares (cada vez mais majoritária, à medida que se sobe a escada da hierarquia) entre 1964 e 1985 no Brasil não houve ditadura, mas sim um “regime forte”. Aliás, essa afirmação do atual ministro da casa civil Walter Braga Netto (que ironicamente é militar) – proferida na Câmara dos Deputados, em 2021 – foi usada por ele como “prova” circular de que a história está errada, pois segundo ele, “se tivesse havido ditadura” muitas pessoas não estariam vivas. Parece que o “chega pra lá” do general disfarçado de ministro deu resultado, já que nenhum parlamentar naquela sala se incomodou com o que foi dito. Teriam concordado com o chilique revisionista do general!?

Por outro lado, e com outras cores, é estabelecido o consenso acadêmico de que houve sim um regime de exceção, com repressão estatal e todos os abusos que configuram uma ditadura militar. Tanto os militares quanto os guerrilheiros dos diversos movimentos revolucionários (que depois se tornaram homens públicos influentes na República!) tratam de moldar a história dentro dos limites de suas visões de mundo, e com isso gerar uma narrativa, uma maneira de (re) contar a história. Como em 1984, romance distópico de George Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Ambos os grupos pintam o mundo com suas tintas preferidas e idolatram a interpretação tendenciosa que eles mesmos criaram, fazendo desse autoengano o protótipo da realidade última pela qual lutam entre si.

Mas sempre há uma alternativa, e normalmente ela é bem menos romântica do que as novelas enviesadas dos roteiristas da moda. De acordo com o cientista social Robson Augusto em seu artigo sobre 1964, os generais daquela época tiveram como motivação principal para o golpe nada mais do que o medo de serem depostos de seus tronos burocráticos conquistados na vida militar com toda a estrutura de benesses e privilégios bancada pelo Estado brasileiro. As águas turvas que se prestaram a justificar o injustificável, isto é, o rompimento da ordem democrática com tudo o que se seguiu depois, foi a ameaça (real) do socialismo no mundo, a guerra fria, a URSS, Cuba, enfim, a conveniente e oportuna culpa alheia. Uma estratégia de sucesso usada até hoje.

Nos fins da década de 1980, o “regime forte” teve um ocaso melancólico, mas marcado por um incidente folclórico cujas consequências seriam duramente sentidas por todos os brasileiros dali a trinta anos. A reportagem da revista Veja sobre um certo capitão Bolsonaro e seu posterior julgamento pelo Superior Tribunal Militar. De acordo com o livro de Luiz Marklouf Carvalho, “O Cadete e o capitão”, que descreve os fatos, o julgamento foi marcado mais por ofensas e ressentimentos em relação à revista Veja e à imprensa em geral do que realmente por algo que ultrapassasse o “espírito de corpo” corporativista da classe armada. É sabido que os militares (em geral no topo da pirâmide) se veem como destacados da massa social, mais brasileiros que o comum dos mortais e incumbidos sabe-se lá por qual divindade castrense de missões que só eles poderiam cumprir. Ao que parece, os fatos atribuídos ao capitão e divulgados pela imprensa, longe de colaborar para desabonar o réu, serviram mais para alimentar o ranço classista dos que estavam sendo defenestrados da cena política. A reabertura democrática congelou essa mentalidade, colocou seus ideólogos em hibernação, mas não eliminou a ideologia. Ela se recolheu aos quartéis e esperou… aguardando os sinais dos tempos.

“Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar. Mas o que há de militar no Congresso? Acho que não há mais ninguém.” Esta frase foi dita pelo general Ernesto Geisel em entrevista concedida em 28 de julho de 1993, durante o governo de Itamar Franco, ao antropólogo Celso Castro. Segundo o falecido general, os “militares devem ficar fora da política partidária, mas não da política geral” e que à medida que o país fosse se desenvolvendo, essa interferência iria diminuindo. Mesmo fazendo concessões suspeitas ao espírito democrático nascente, é possível perceber um tom de ressentimento, de nostalgia, mas também de que, conquanto a saída dos militares tivesse sido pela porta dos fundos, ela teve pouco ou nenhum dano colateral. Já o deputado Jair Bolsonaro por muitos anos foi constrangido a fazer suas campanhas políticas do lado de fora dos quartéis – aliás, como manda a lei.

Em 16 de maio de 2012, o governo Dilma Rousseff instaurou a Comissão Nacional da Verdade. Os desdobramentos dessa iniciativa tardia – excessivamente tardia, pois basta lembrar que os luminares do partido nazista foram julgados menos de um ano após o final da segunda guerra –  mas inescapável do Estado brasileiro foram muito sérios. Mas, um episódio marcante, mais pelo simbolismo histórico do que pelo drama pessoal, foi o depoimento do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela justiça brasileira em 2008 como tendo sido torturador durante a ditadura… e ídolo do deputado Bolsonaro. Chamado a depor na CNV, uma de suas falas mais emblemáticas foi a de que, segundo ele, “quem deveria estar (…)” sendo interrogado era “o Exército Brasileiro”, pois ele, o coronel, sob o governo militar, “estava seguindo ordens legais da cadeia de comando”. Sabemos onde estava o Exército nos anos 60, mas onde estava o Exército na primeira década do século XXI?

Em 2013 eclodiram as hoje chamadas “jornadas de junho”. Protestos organizados pelo país, que chegaram a ser apoiados por quase 90% da população. Demandas sociais e políticas diversas aglutinaram-se em torno do eixo corrupção, impunidade e gastos estratosféricos do governo com a copa do mundo. No ano seguinte, o segundo mandato fantoche da ex-guerrilheira tratou de passar uma borracha nas “jornadas de junho”, e iniciou o governo com popularidade ainda mais baixa. O petrolão estava a todo vapor… A crise estava instalada. Talvez um primeiro sinal dos tempos.

Em 2015, o atual vice-presidente Hamilton Mourão, que à época era general da ativa, foi exonerado do cargo de comandante dos exércitos do Sul. Em uma palestra privada dentro de um quartel, um CPOR, ele dissera que era necessário um “despertar para a luta patriótica”. Mais tarde, em entrevista, saindo pela tangente, ele diria que a “luta patriótica” seria um “esforço e empenho de todos os patriotas no sentido de sobrepujar a crise“. É de se perguntar, como uma palestra feita por um general de exército, dentro de um CPOR chegou à imprensa…

“Na minha visão, que coincide com a dos companheiros que estão no alto comando do Exército, estamos numa situação que poderíamos lembrar da tábua de logaritmo, de aproximações sucessivas. Até chegar ao momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou, então, nós teremos que impor isso”. Esta foi mais uma declaração dada pelo general Mourão em setembro de 2017. O ministro da Defesa, Raul Jungman chamou o Comandante da Força terrestre, general Villas-Bôas, e ficou decidido que as falas de Mourão não configuraram nenhum ilícito e que o “clima nas Forças Armadas era de absoluta tranquilidade”. Esta também foi a narrativa do Ministério Público Militar.

Morto o general Leônidas Pires, que insistiu na expulsão do capitão Bolsonaro do EB por incompatibilidade com o exercício do oficialato; morto Geisel, do qual já sabemos o que pensava do deputado, quem, na sociedade militar, denunciaria a escabrosa inversão de valores que estava por vir? Observe o leitor que isso é de importância crucial.

Não importava que qualquer cidadão soubesse do passado, menos ainda que a imprensa o reverberasse.

Excluídos do cenário os antigos generais – que certamente seriam uma presença incômoda, e provavelmente um voz de comando censora de ascendência inquestionável no universo militar – estava livre o caminho para o retorno triunfal da regência de chumbo. As Forças Armadas eram recorrentemente apontadas pela imprensa como as instituições nacionais de maior credibilidade perante a opinião pública. Em fins de 2016 foi lançada a cabeça de ponte derradeira. O deputado Jair Bolsonaro voltava sorridente a frequentar os quartéis para fazer a campanha política mais inadequada de que se tem notícia na história do Brasil.

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”, dizia a primeira postagem do general Eduardo Villas-Bôas (comandante do EB entre 2015-2019), feita no dia 3 de abril de 2018 no Twitter. A postagem polêmica, um petardo vindo diretamente do coração das Forças Armadas, foi interpretada por grande parte da imprensa e de estudiosos do tema, como uma pressão inapropriada e totalmente indevida, exercida contra o Supremo Tribunal Federal, que julgava o ex-presidente Lula por crimes de corrupção. Em uma segunda publicação na rede social, dirigida aos “cidadãos de bem” (típica abstração sem pé nem cabeça matraqueada pelo deputado Bolsonaro) o general, assoprando depois de morder, dizia que o EB “estava atento às suas missões institucionais”. Dois meses depois, foi lançada a campanha de Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República, com o slogan da Brigada de Infantaria Paraquedista (Brasil acima de tudo) “gentilmente cedido” pelo Exército Brasileiro, sem nenhuma ressalva do Tribunal Superior Eleitoral.

Geisel queixou-se de que não havia militares suficientes no Congresso na década de noventa. Hoje, só no Executivo, há mais de seis mil fardados (ou de pijama) “aparelhando” a Administração Federal. Na conveniente e oportuna picada aberta pelo “mau militar”, oficiais generais das três Forças revezam-se nos pináculos do leviatã nacional, grande parte deles sem competência técnica legal para ocupar tais cargos, alguns inclusive bastante sensíveis, e que, num governo sério, jamais seriam ocupados por alguém sem as mais altas qualificações.

Descendo a escadinha hierárquica pode-se encontrar do coronel ao sargento, acocorados um e outro em cargos milionários ou em postos singelos como os antigos, agora ressurretos, bedéis, que disciplinarão nossas “gerações futuras” nas escolas cívico militares. Já se pode notar influências dessa blitzkrieg diluída no tempo. O caso mais descarado ocorreu na gestão da pandemia de coronavírus, em que um general (pelo insuspeito fato de ser general) encarnou o papel de ministro da saúde num dos momentos mais graves da crise. Há relatos de historiadores que estão tendo trabalhos acadêmicos “congelados” porque questionam a ditadura militar de 64 por um viés antigovernista. Um coronel da reserva abertamente crítico à politização dos militares e à regência (informalmente) empossada afirmou recentemente em rede social ter sido proscrito de um debate público por um reitor de uma universidade por supostamente ser ele, o coronel, um “militante petista”.

Os frutos surgem nos mais diversos campos. Um em especial promete ser o pomo de ouro da semeadura. Recentemente em uma sessão na Câmara dos Deputados, um deputado da chamada esquerda radical perguntou a um deputado da base governista (ultra direita) – que insiste em usar a designação de general – se era justo que o governo Bolsonaro remunerasse com mais de duzentos mil reais mensais o diretor da Petrobrás (outro general), enquanto inativos e pensionistas das Forças Armadas, em sua maioria praças, tiveram direitos usurpados e prejuízos em seus salários. O general sem soldados, deputado sem povo, não respondeu e encerrou laconicamente a sessão.

Uma frase lapidar do general Peri Bevilacqua, que não se metia a fazer politicagem, limitando-se a ser um bom soldado, poderia ser o dístico da regência de chumbo: “Quando a política entra no quartel por uma porta, a disciplina e a sensatez saem pela outra“.

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