sexta-feira, 25 de março de 2022

Não basta enfiar a faca, é preciso rodar

 “[O general] deve ser capaz de iludir seus oficiais e soldados por meio de relatórios e apresentações falsas e, assim, mantê-los em total ignorância.”

A Arte da guerra, de Sun Tzu



Uma das sutilezas da vida dita civilizada é poder-se matar um sujeito a crédito. Para esta modalidade de crime praticamente não há tipificação penal. Pode-se levar anos a consumar o fato. Mata-se lentamente ‒ como dito, às prestações, aos poucos. Como as tecnologias atuais dão voz a praticamente todos, é possível exercer esse tipo de esporte nefasto mesmo à distância. Com uma conexão de internet fazendo o papel de arco e muitas palavras vagas e cálculos controversos fazendo papel de flechas é possível espicaçar o alvo e atormentá-lo por raiva ou indignação, e ainda posar de bom moço. Ironia e deboche são as setas mais eficazes e certeiras. São delicados requintes de tortura pós-modernos que substituem (não perfeitamente, pois perfeito só Deus!) a gana real que os assassinos de reputação têm de exterminar, extirpar da vida social, em uma palavra feia, “matar” aqueles dos quais, por enquanto, só podem debochar e tripudiar.

Há alguns meses, em uma audiência no Congresso Nacional, um deputado questionou o comandante da Força Aérea sobre o fato de a Lei nº 13.954/19 ter “deixado soldados para trás”. Esta Lei foi promulgada sem vacilação por Jair Bolsonaro, apesar de ele saber dos prejuízos que adviriam dela. A resposta ao deputado foi que ele, o deputado, estaria enganado, que os militares da Lacuna 2001-2019 ‒ que só na FAB são no mínimo vinte mil ‒ não foram deixados para trás, e que esse “sentimento” do deputado não seria verdadeiro. O que não é verdadeiro só pode ser uma mentira. Se o deputado mente, é lá com ele. Não seria o primeiro nem o último político a mentir… Já o comandante militar, por seu turno, afirmou ter responsabilidade por “suas” tantas outras dezenas de milhares de militares, e que tal alegação do deputado seria, além de mentirosa (o que não é verdade, só pode ser mentira!), “perigosa”. Mas vinte mil militares sabidamente varridos para debaixo do tapete pelo Governo (em sua maioria eleitores de primeira hora do Presidente) não teriam condições mentais de aferir os próprios sentimentos? Estariam todos esses homens e mulheres sofrendo de alucinação coletiva? Teriam perdido a capacidade de fazer simples comparações matemáticas em suas folhas de pagamento? Isto certamente não é verdadeiro…

Mais recentemente o comandante da Marinha do Brasil deu declarações bastante objetivas sobre a reestruturação da carreira das Forças Armadas. Afirmou com toda convicção que os suboficiais teriam tido vantagens financeiras mais consideráveis, percentualmente maiores do que os oficiais. O almirante estava no seu ambiente controlado, não havia interlocução séria nem muito menos alguém para lhe contradizer. Sabemos que isso é normal no militarismo. Por outro lado, no mundo real, os comentários nas redes sociais de militares foram em geral de tom irônico, para dizer o mínimo. Alguns até já estão saindo em defesa do comandante, o que é compreensível, pois o assunto é tão intrincado, a Lei nº 13.954/19 foi tão mal costurada e seus efeitos são tão inéditos e danosos, que é realmente temerário tentar contrapor as palavras ditas na entrevista simplesmente usando números frios.

Mas algo de muito revelador jaz nas entrelinhas desses dois episódios. Um princípio, uma ideia subjacente, como um pensamento diretor que jamais é convertido em palavras, mas que conduz e delimita esses discursos, essas falas tão desconectadas da realidade. Todos estamos mais do que carecas de saber que os militares que se aposentaram entre 2001 e 2019 foram desprezados pelo governo. Este exército invisível de homens e mulheres é uma pedra no salto alto da cúpula militar. Lá em 2019, quando os veteranos da Lacuna foram rotulados pelos generais políticos como “retrovisores”, “incompetentes e preguiçosos”, os ofensores não agiram assim pelo calor do momento.

Não eram simples ofensas. Aquele tratamento aparentemente passional na verdade era fruto de estratégia. Fazia parte do mito justificador de uma lei de exclusão, de uma lei elitista que, aos olhos míopes do parlamento, fazia justiça aos militares da ativa ao mesmo tempo em que punia os veteranos “desinteressados na carreira”. Hoje, dois anos após essa fábula ter sido encenada, o descaso do governo somado à negação dos comandantes militares também não são atos desconexos e isolados, mas fazem parte da sedimentação do mito criado em torno da meritocracia, que pretende justificar a ruptura radical inaugurada pelo governo Bolsonaro.

A reserva militar não é uma aposentadoria. Não é um depósito de encostados. A reserva é um seguimento venerável e lógico do militar fardado. A farsa da meritocracia rompeu esse fio. Houve sim quebra de hierarquia. Houve sim afronta à disciplina. E estes dois pilares deveriam ser o código genético de todos os militares, sem exceção, não sós de alguns escolhidos. Mas já está estabelecido que no militarismo brasileiro pós-Bolsonaro, o antigo lema “antiguidade é posto” é artigo de museu. A imprensa especializada já sabe que um general recebeu até agora cinco mil reais a mais, enquanto um cabo recebeu três reais. Ambos na reserva. Quem é o oportunista!?

A verdade é que admitir que existe a Lacuna 2001-2019, admitir que as pensionistas foram roubadas pelo Governo, seria admitir que a Lei foi um erro, que o Presidente errou, que meia dúzia de generais, almirantes e brigadeiros erraram e que vinte mil militares incômodos estão certos. Então é preciso negar a realidade. É preciso moldar os números. É preciso caluniar, chamar de oportunista, de comunista. É preciso debochar e tripudiar, vencer pelo desprezo, até que o último veterano lacunado tenha passado desta para melhor, e o assunto esteja morto e enterrado. Enfim, não basta enfiar a faca, é preciso rodar.

Mais textos em https://linktr.ee/veteranistao 

O Advogado do diabo e o Comando dos sargentos

"Nunca houve no Exército, e com ele é incompatível, essa ideia de classe no sentido moderno (sindical) de se contraporem umas às outras em busca de benefícios exclusivos. E é claríssima a nocividade de tais criações esdrúxulas nas classes armadas.”    

Pedro Aurélio de Góes Monteiro, general-de-exército e político brasileiro

“Guerra irrestrita”, o Mein Kampf do PCC


Unrestricted WarfareQiao Liang...

ISBN-13: 9780971680722
ISBN-10: 0971680728
Ano: 1999 / Páginas: 208
Idioma: inglês 
Editora: People's Liberation Army


No atual bombardeio de informações e desinformações que nos atinge é quase impossível manter a mesma opinião por mais de três minutos. Mas uma coisa é certa. A História é uma ciência que tem muitos pontos cegos, portanto só pode ser bem analisada em retrospectiva. É temerário pintar um quadro exato da paisagem enquanto o trem está em movimento.

Há quem diga que o flagelo nacional-socialista alemão fora todo ele previsto no libelo autobiográfico de Adolf Hitler, o livro “Mein Kampf”. É verdade. Descontados os paroxismos de ódio e os delírios megalomaníacos, está tudo lá. As anexações; o Lebensraum (espaço vital); o holocausto judeu. Um ideário torpe, ainda em embrião, mas que se concretizou da forma mais macabra possível.

Falando em livros proféticos… há um escrito em 1999 por dois coronéis do Exército chinês, (Qiao Liang e Wang Xiangsui) que parece se enquadrar nessa categoria.

É sabido que a China está em guerra comercial com os EUA. Isso não prova definitivamente que haja um escalonamento desse novo tipo de violência, isto é, não se pode provar que o PCC declarou guerra ao mundo livre. Mas, se a nação mais rica do planeta está sendo atacada, é inquestionável que isso venha a afetar pelo menos grande parte do ocidente. O ato falho nesse raciocínio, e aí entra a “Guerra Irrestrita”, é achar que uma guerra hoje em dia seria conduzida nos moldes convencionais. Uma guerra comercial pode não ser noticiada pela mídia nos primeiros meses de “embate” entre os envolvidos. Estes, por sua vez, não são tão facilmente nomeáveis. Os tratados de comum acordo, as áreas de livre comércio, as uniões geopolíticas locais transformam o tabuleiro da guerra “normal” numa gigantesca estrutura feita de dominós, frágeis e prontos a cair ao menor aumento do barril de petróleo.

E quem pode afirmar que uma suposta guerra comercial não seria apenas uma frente isolada num teatro de operações muito, mas muito mais vasto e surpreendente?

Eis algumas “profecias” da “Guerra irrestrita”:

“(...) a guerra renascerá sob outro formato (...) tornando-se um instrumento de enorme poder nas mãos dos que nutrem a intenção de controlar outros países e regiões.”

“(...) enquanto presenciamos uma relativa redução na violência militar, estamos evidenciando, definitivamente, um aumento na violência política, econômica e tecnológica.”

“Desta forma, a indução de um colapso de um mercado acionário, a contaminação de uma rede de computadores por um vírus, um rumor ou escândalo que resulte na flutuação do câmbio ou, a exposição comprometedora de líderes de um país, constituem ações que podem ser enquadradas como “armas neoconcepcionais.”

“(...) tem havido o desenvolvimento de meios para atacar direta e especificamente um centro nervoso de um inimigo, sem danificar as áreas circundantes. Desta forma têm-se novas opções para obtenção da vitória, gerando a crença de que a melhor forma de se obter a vitória é através de um maior exercício de controle e não através da imposição da morte.”

“Até mesmo o último refúgio da raça humana — o mundo interior do ser humano — não está livre dos ataques da guerra psicológica.”

O que estamos vivendo neste 2020, se não uma guerra psicológica!?

E aqui um aviso temporão aos nossos comandantes militares sobre recursos materiais e humanos:

“(...) algumas nações com visão prospectiva, ao invés de única e simplesmente priorizarem os cortes de efetivos, estão enfatizando: a elevação da qualificação técnica do seu pessoal; o incremento do nível de tecnologia avançada e semi-avançada incorporada ao seu armamento; e a atualização do pensamento militar e doutrinário.”

Bem, aqui parece que o Brasil está na crista da onda, mesmo que involuntariamente, já que a evasão causada pelo achatamento dos salários iniciada nos anos noventa da década passada e levada adiante pelo atual governo, diminuiu bastante os efetivos militares.

O PCC está deixando o mundo de joelhos. Há os que se recusam a ver isso. Há as mídias literalmente compradas pelo Partido que se recusam a noticiar isso. Mascaradas e papagaiando estatísticas suspeitas, aterrorizam-nos diuturnamente com a “guerra contra o vírus”. Lembram-se da “guerra contra o terror” dos anos 2000? Aonde aquilo nos levou!? Isso, ao Iraque. Mesma tática, diferentes atores.

Sobre isso, o que diz a “Guerra irrestrita”:

“Poderia a compra ou obtenção do controle de ações ser usada para transformar os jornais e as cadeias de televisão de uma outra nação como instrumentos de uma guerra da mídia?”

E para os românticos aficcionados da guerra tradicional, homem a homem, o Ministro da Guerra francês na primeira grande guerra Georges Clemenceau, no início do século XX, declarou que “a guerra é um assunto muito sério para ser deixado a cargo dos generais”. Citado pelos coronéis chineses: “uma coisa é certa: os militares não detêm mais o monopólio da prática da guerra.”

Para os que dão um risinho superior e debocham quando alguém usa o termo “comunismo”, eis um aviso que deveria estar nos manuais das academias militares (ops, esqueci-me de que a pedagogia militar positivista é superior às ideologias!!):

“(...) Os legislativos de nações que adotam o modelo representativo de governo não podem evitar o envolvimento por parte dos grupos de “lobby”.

Enfim, o livro é um áugure moderno do que ocorre hoje, diante dos nossos olhos.

Só não ver quem não quer.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Falsa falsa aurora

Falsa Aurora - A iniciativa das Religiões Unidas, o globalismo e a busca por uma religião mundialLee PennISBN-10: 859507108X Ano: 2020 / Páginas: 771 Editora: Vide Editorial

Lee Penn é cristão ortodoxo. Não aceita a reencarnação. Não se pode coligir ensinamento esotérico com o que a religião sectária e exotérica prega, se não se leva em conta a reencarnação. Como a maioria delas nega a metempsicose, fica tudo uma confusão superficial. Não se dá um passo. É como a cobra engolindo o próprio rabo.

As suspeitas que ele lança sobre a corrida da URI pelo poder podem até ser verdadeiras, mas não acho que uma religião universal vá ser inventada pelo homem. Isso talvez até ocorra, mas daqui a um “zilhão” de anos, e deve ser uma síntese, não um sincretismo bobo do jeito que ele imagina. Um mais um igual a dois. Um frankenstein pseudoespiritual.

Há informações interessantes no livro, mas quando ele se mete a entendido em Blavatsky e Alice Bailey, a coisa fica chué mesmo. Ele simplesmente não menciona a chave para encaixar tudo o que essas “escritoras” deixaram com o cristianismo. A reencarnação dos espíritos, ou “egos”, como HPB chamava na DS. O que AB e HPB chamam de "raça" não tem o mesmo significado que a etnologia emprega.

É claro como água que, se os livros religiosos não foram totalmente manipulados, pelo menos grande parte foi. Tentar achar a saída disso, e ainda lançar a culpa dessa confusão na URI, cheira mais a um ataque tolo de quem vê o materialismo a cada dia mais esvaziar as igrejas. Mas isso não é por causa da URI. A “culpa” é dos próprios “donos” das fés, que podaram as grandes árvores das religiões, que agora não conseguem fornecer sombra suficiente para o rebanho em debandada. Esse rebanho pede respostas. Corre para a ciência, que também está em crise. A URI, com o seu sincretismo, atrai alguns, os mais superficiais. Mas não todos.


Breve


Autodomínio e o Destino com os Ciclos da VidaSpencer Lewis

Os livros da AMORC são muito bons. Este, porém, a mim parece meio datado. Os tempos são outros. Não acho que as regras um pouco rígidas e excessivamente específicas contidas ali sirvam para balizar a vida das almas hoje. Não acho que o caos dos dias atuais possa ser "vencido" ou contornado por tabelas de maré, datas de nascimento e outras coisas, que talvez há 100 anos tivessem um efeito real. Um livro deles que recomendo muito se chama "Envenenamento mental". Em tempos de gripe chinesa, pode ser bastante útil.

Somos ou não somos racistas?




Um assunto que sempre tem estado em alta há alguns anos é o racismo. Acho interessante e acompanho o que surge aqui e ali sobre ele. É uma questão premente no mundo todo. As mídias ocidentais, o ambiente acadêmico e muitas pessoas públicas estão mais ou menos de acordo sobre o assunto. Sendo um país “multiétnico”, no Brasil o eixo do assunto está na discriminação dos brasileiros de pele escura, a raça negra.

Pensei nos relacionamentos que tive ao longo da vida, desde a infância, passando por adolescência, juventude e idade adulta. Quantas pessoas de cor de pele diferente da minha eu encontrei, convivi, devotei amizade, amei ou não… Realmente não me recordo de ter olhado para nenhuma delas como inferior a mim por causa de sua cor. A diferença que vejo em quem é diferente convida-me antes a incorporar algo dele do que em princípio segregá-lo. Adotei como princípio de vida, respeitar a quem enfrenta os mais fortes, reverenciar os que protegem os mais fracos e tentar imitar os dois tipos.

Resolvi ler um pouco sobre o assunto particular do racismo neste País, tão colorido e ao mesmo tempo tão obscuro. Como não poderia, para escrever sobre isso, ler muito material, lancei mão de duas pequenas obras, que vi, no meu diletantismo de amador, como representativas de dois pólos em eterno confronto. Uma delas, de Ali Kamel – Não Somos racistas – será objeto de alguns comentários no texto abaixo. A outra ficará para um próximo texto.



Resenha do livro “Não Somos racistas”

Apesar de modesto, tem menos de 150 páginas, o livro de Ali Kamel tem a densidade dos fatos. É um trabalho de pesquisador, de um curioso, mas também de um detetive competente. A princípio, não acredita no que falam sobre o racismo no Brasil, já que o que falam não casa com o que ele vê. Segundo ele, uma das maiores forças do Brasil é a sua característica de nação melting pot, ao contrário, por exemplo dos EUA, que é uma nação multicultural ou multiétnica. Neste caso as diferentes culturas, etnias, credos, raças coexistem, mas não convivem. Vivem justapostas, mas não aglutinadas. Estão sob determinada égide nacional, mas seguem separadas como uma casa construída sem argamassa. Pode-se desconstruir a residência tijolo por tijolo e a ideia de casa terá desaparecido após essa operação. Já no primeiro caso, no Brasil, é impossível desconstruir sem destruir, pois cada tijolo, cada parede, estão unidos como uma coisa só. O melting pot seria então, segundo o autor, aquilo que nos fazia sentir “(…) orgulhosos da nossa miscigenação, do nosso gradiente tão variado de cores(…)”. O que o livro se propõe investigar é que estaríamos sendo “reduzidos a uma nação de brancos e negros. Pior: uma nação de brancos e negros onde os brancos oprimem os negros.”

Ali Kamel, como gente que não leu ou leu sem entender pode ser levada a pensar, não descarta o racismo. Em nenhum momento ele afirma não haver manifestações abjetas de racismo no Brasil. O que ele faz, por exemplo, nas inevitáveis comparações com os EUA (esperadas, já que os dois países são coevos) é afirmar o óbvio, isto é, que o racismo ianque é muito mais acintoso e manifesto do que por aqui, que seria um racismo “envergonhado”.

No capítulo inicial “Gênese da nação bicolor” um nome se repete, Fernando Henrique Cardoso. No início de sua trajetória como sociólogo plantou a semente do “racismo a qualquer custo”, que depois foi transplantada nos governos do Presidente FHC e se tornaram frondosas jabuticabeiras nos governos Lula e Dilma. Com perícia clínica o livro mostra como o jovem intelectual FHC “passa a bola” para o ladino político FHC e os dois “fundamentam” o mito de que as agruras do negro no Brasil são preponderantemente filhas do racismo e não só da pobreza. O truque é exposto com clareza. A pobreza não é uma chaga. O racismo é. Que se combata o racismo, não a pobreza, pois isso seria erguer a maioria pobre a melhores condições socioeconômicas e fatalmente, mais cedo ou mais tarde, perder… eleitores, eleitores facilmente manipuláveis. Uma classe, brancos, contra a outra, negros. Laboratório marxista na prática!?

O pretenso cientificismo ideologizado que ergue o punho e aponta, babando e vociferando a palavra “raça” também é examinado. O autor traz opiniões e estudos de especialistas (médicos geneticistas) sobre o assunto. Conquanto longa, vale a pena uma citação:

“O geneticista Sérgio Pena já mostrou isso num estudo brilhante. Usando os marcadores moleculares de origem geográfica, ele analisou o patrimônio genético de cidadãos negros da cidade mineira de Queixadinha e descobriu que 27% deles tinham uma ancestralidade predominantemente não-africana, isso é, maior do que 50%. Considerando-se os brancos de todo o Brasil, descobriu-se que 87% deles têm ao menos 10% de ancestralidade africana. Nos EUA, esse número cai para apenas 11%. Ou seja, no Brasil, há brancos com ancestralidade preponderante africana e negros com ancestralidade preponderante européia. Somos, graças a Deus, uma mistura total.”

E arremata com uma obviedade, daquelas do tipo atual, como ter de explicar que o céu é azul: “Raça, até aqui, foi sempre uma construção cultural e ideológica para que uns dominem outros.”

Disse que o livro é pródigo em números. A parte que mais me intrigou foi o capítulo “Sumiram com os pardos”. É recorrente entre ativistas do “movimento negro” (que não passa de uma articulação político-partidária, só instrumentalmente preocupada com os negros) a frase “lacradora” “a pobreza no brasil tem cor, e ela é negra”. Dizem muito “o Brasil tem a maior população negra depois da Nigéria”. Mas essa interpretação (distorção) é falaciosa, já que soma pardos e pretos e os classifica como “negros”. Segundo Kamel, os brancos são, de fato, 51,4% da população. A grande omissão diz respeito aos pardos: eles são 42% dos brasileiros. Entre os 56,8 milhões de pobres, os negros são 7,1%, e não 65,8%. Os brancos, 34,2%, e os pardos, 58,7%. “Portanto, se a pobreza tem uma cor no Brasil, essa cor é parda.”

Para citar só um dos muitos efeitos deletérios de políticas públicas embasadas em dados falseados e interpretações enviesadas, as práticas de cotas e ações afirmativas se baseiam na certeza estatística de que os negros são 65,8% dos pobres, quando, de fato, eles são apenas 7,1%. Na hora de entrar na universidade ou no serviço público, os negros terão vantagens. Os pardos, não. Do ponto de vista republicano, isso é grave.

Tocante e saboroso, o capítulo “Educação, a única solução” revive um pouco das experiências do autor, quando aos 11 anos, começou a estudar no Colégio Santa Rosa de Lima, no Rio de Janeiro. Nessa parte, ele apresenta números reveladores sobre a educação no Brasil e no mundo. E mais uma vez, a manipulação e o engano são a tônica das estatísticas. A panaceia do autor para a questão do racismo é o óbvio de sempre: investimento maciço em educação. Brancos, pardos e negros pobres precisam para ontem de uma escola séria, não a draga que engole inutilmente nossos impostos. A política imoral e criminosa dos últimos governos nos colocou num beco sem saída na questão do racismo. Qual candidato a algum cargo na República proporá o fim das cotas raciais ou sociais? O “mercado de votos” será implacável com ele.

O último capítulo faz uma advertência muito séria, quando afirma que o multietnicismo tão em voga no mundo ocidental hoje em dia não é, ao contrário do que alguns pensam, um marco civlizatório, “algo chique”, como escreve Kamel. Ele diz que

“(…) nações multiétnicas estão num degrau abaixo em termos de ideal civilizatório: no topo, nações misturadas, em que cor e “raça” são noções de um passado bárbaro; no meio, nações multiétnicas, em que a discriminação é odiosa, mas onde a mistura é evitada como “antinatural”; e no degrau mais baixo, as nações que se orgulham de sua pureza racial, seja ela qual for.”

Eu levaria um pouco mais longe essa constatação. Não seria essa divisão entre “raças” um estratagema para armar um campo de batalha entre irmãos, que de outra maneira jamais se voltariam uns contra os outros? Vemos o que ocorre nos EUA na questão racial. Praticamente um barril de pólvora sempre prestes a explodir. Por aqui, vez ou outra, a mídia de massa (sempre ela) dá nó em pingo d’água para erguer bem alto a bandeira vermelha do racismo a qualquer custo, mesmo sacrificando a inteligência de quem paga pelas notícias. Não somos uma nação bicolor, não somos multiétnicos. Somos miscigenados, somos um só povo. O povo brasileiro. Um povo imperfeito, como qualquer outro. Mas como todos os povos, a caminho da redenção e com uma missão particular a cumprir. Isso precisa ser resgatado. Precisa ser trazido à tona. Não pode ser esquecido. Num Brasil em que judeus, palestinos e árabes conseguem conviver em paz, negros, brancos e pardos terão perdido essa arte? Duvido.

A Regência de chumbo

Um vislumbre da república tutelada


“A utilização repetida e continuada das Forças Armadas em nosso país para a conquista do poder, impossível, para as forças do atraso, pela via eleitoral, é responsável por tal deterioração e consequentemente pelo declínio da disciplina que lhe é necessária, e que constitui mesmo a sua razão de ser.”

História militar brasileira, Nelson Werneck Sodré


Desde os primórdios da história do Brasil, a classe militar sempre orbitou em torno do poder. Como uma presença subliminar os militares parecem custodiar o Estado brasileiro, desde o tempo das sesmarias até os dias atuais, como fiadores de um nacionalismo desinteressado, mas necessário. A erupção republicana, sem a mínima participação de um povo, que, no século da revolução industrial, aparentava viver no medievo, foi resultado de uma intriga pessoal encabeçada por generais do exército. A partir daquele momento, os militares passariam a figurar como um Mefistófeles institucional ora a derrubar governos ora a erigir lideranças tuteladas. O que se segue é um apanhado histórico despretensioso da mais recente, mas talvez não última, investida da tropa política.

Sob uma perspectiva dos militares (cada vez mais majoritária, à medida que se sobe a escada da hierarquia) entre 1964 e 1985 no Brasil não houve ditadura, mas sim um “regime forte”. Aliás, essa afirmação do atual ministro da casa civil Walter Braga Netto (que ironicamente é militar) – proferida na Câmara dos Deputados, em 2021 – foi usada por ele como “prova” circular de que a história está errada, pois segundo ele, “se tivesse havido ditadura” muitas pessoas não estariam vivas. Parece que o “chega pra lá” do general disfarçado de ministro deu resultado, já que nenhum parlamentar naquela sala se incomodou com o que foi dito. Teriam concordado com o chilique revisionista do general!?

Por outro lado, e com outras cores, é estabelecido o consenso acadêmico de que houve sim um regime de exceção, com repressão estatal e todos os abusos que configuram uma ditadura militar. Tanto os militares quanto os guerrilheiros dos diversos movimentos revolucionários (que depois se tornaram homens públicos influentes na República!) tratam de moldar a história dentro dos limites de suas visões de mundo, e com isso gerar uma narrativa, uma maneira de (re) contar a história. Como em 1984, romance distópico de George Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. Ambos os grupos pintam o mundo com suas tintas preferidas e idolatram a interpretação tendenciosa que eles mesmos criaram, fazendo desse autoengano o protótipo da realidade última pela qual lutam entre si.

Mas sempre há uma alternativa, e normalmente ela é bem menos romântica do que as novelas enviesadas dos roteiristas da moda. De acordo com o cientista social Robson Augusto em seu artigo sobre 1964, os generais daquela época tiveram como motivação principal para o golpe nada mais do que o medo de serem depostos de seus tronos burocráticos conquistados na vida militar com toda a estrutura de benesses e privilégios bancada pelo Estado brasileiro. As águas turvas que se prestaram a justificar o injustificável, isto é, o rompimento da ordem democrática com tudo o que se seguiu depois, foi a ameaça (real) do socialismo no mundo, a guerra fria, a URSS, Cuba, enfim, a conveniente e oportuna culpa alheia. Uma estratégia de sucesso usada até hoje.

Nos fins da década de 1980, o “regime forte” teve um ocaso melancólico, mas marcado por um incidente folclórico cujas consequências seriam duramente sentidas por todos os brasileiros dali a trinta anos. A reportagem da revista Veja sobre um certo capitão Bolsonaro e seu posterior julgamento pelo Superior Tribunal Militar. De acordo com o livro de Luiz Marklouf Carvalho, “O Cadete e o capitão”, que descreve os fatos, o julgamento foi marcado mais por ofensas e ressentimentos em relação à revista Veja e à imprensa em geral do que realmente por algo que ultrapassasse o “espírito de corpo” corporativista da classe armada. É sabido que os militares (em geral no topo da pirâmide) se veem como destacados da massa social, mais brasileiros que o comum dos mortais e incumbidos sabe-se lá por qual divindade castrense de missões que só eles poderiam cumprir. Ao que parece, os fatos atribuídos ao capitão e divulgados pela imprensa, longe de colaborar para desabonar o réu, serviram mais para alimentar o ranço classista dos que estavam sendo defenestrados da cena política. A reabertura democrática congelou essa mentalidade, colocou seus ideólogos em hibernação, mas não eliminou a ideologia. Ela se recolheu aos quartéis e esperou… aguardando os sinais dos tempos.

Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar. Mas o que há de militar no Congresso? Acho que não há mais ninguém.” Esta frase foi dita pelo general Ernesto Geisel em entrevista concedida em 28 de julho de 1993, durante o governo de Itamar Franco, ao antropólogo Celso Castro. Segundo o falecido general, os “militares devem ficar fora da política partidária, mas não da política geral” e que à medida que o país fosse se desenvolvendo, essa interferência iria diminuindo. Mesmo fazendo concessões suspeitas ao espírito democrático nascente, é possível perceber um tom de ressentimento, de nostalgia, mas também de que, conquanto a saída dos militares tivesse sido pela porta dos fundos, ela teve pouco ou nenhum dano colateral. Já o deputado Jair Bolsonaro por muitos anos foi constrangido a fazer suas campanhas políticas do lado de fora dos quartéis – aliás, como manda a lei.

Em 16 de maio de 2012, o governo Dilma Rousseff instaurou a Comissão Nacional da Verdade. Os desdobramentos dessa iniciativa tardia – excessivamente tardia, pois basta lembrar que os luminares do partido nazista foram julgados menos de um ano após o final da segunda guerra –  mas inescapável do Estado brasileiro foram muito sérios. Mas, um episódio marcante, mais pelo simbolismo histórico do que pelo drama pessoal, foi o depoimento do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela justiça brasileira em 2008 como tendo sido torturador durante a ditadura… e ídolo do deputado Bolsonaro. Chamado a depor na CNV, uma de suas falas mais emblemáticas foi a de que, segundo ele, “quem deveria estar (…)” sendo interrogado era “o Exército Brasileiro”, pois ele, o coronel, sob o governo militar, “estava seguindo ordens legais da cadeia de comando”. Sabemos onde estava o Exército nos anos 60, mas onde estava o Exército na primeira década do século XXI?

Em 2013 eclodiram as hoje chamadas “jornadas de junho”. Protestos organizados pelo país, que chegaram a ser apoiados por quase 90% da população. Demandas sociais e políticas diversas aglutinaram-se em torno do eixo corrupção, impunidade e gastos estratosféricos do governo com a copa do mundo. No ano seguinte, o segundo mandato fantoche da ex-guerrilheira tratou de passar uma borracha nas “jornadas de junho”, e iniciou o governo com popularidade ainda mais baixa. O petrolão estava a todo vapor… A crise estava instalada. Talvez um primeiro sinal dos tempos.

Em 2015, o atual vice-presidente Hamilton Mourão, que à época era general da ativa, foi exonerado do cargo de comandante dos exércitos do Sul. Em uma palestra privada dentro de um quartel, um CPOR, ele dissera que era necessário um “despertar para a luta patriótica”. Mais tarde, em entrevista, saindo pela tangente, ele diria que a “luta patriótica” seria um “esforço e empenho de todos os patriotas no sentido de sobrepujar a crise“. É de se perguntar, como uma palestra feita por um general de exército, dentro de um CPOR chegou à imprensa…

Na minha visão, que coincide com a dos companheiros que estão no alto comando do Exército, estamos numa situação que poderíamos lembrar da tábua de logaritmo, de aproximações sucessivas. Até chegar ao momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou, então, nós teremos que impor isso”. Esta foi mais uma declaração dada pelo general Mourão em setembro de 2017. O ministro da Defesa, Raul Jungman chamou o Comandante da Força terrestre, general Villas-Bôas, e ficou decidido que as falas de Mourão não configuraram nenhum ilícito e que o “clima nas Forças Armadas era de absoluta tranquilidade”. Esta também foi a narrativa do Ministério Público Militar.

Morto o general Leônidas Pires, que insistiu na expulsão do capitão Bolsonaro do EB por incompatibilidade com o exercício do oficialato; morto Geisel, do qual já sabemos o que pensava do deputado, quem, na sociedade militar, denunciaria a escabrosa inversão de valores que estava por vir? Observe o leitor que isso é de importância crucial.

Não importava que qualquer cidadão soubesse do passado, menos ainda que a imprensa o reverberasse.

Excluídos do cenário os antigos generais – que certamente seriam uma presença incômoda, e provavelmente um voz de comando censora de ascendência inquestionável no universo militar – estava livre o caminho para o retorno triunfal da regência de chumbo. As Forças Armadas eram recorrentemente apontadas pela imprensa como as instituições nacionais de maior credibilidade perante a opinião pública. Em fins de 2016 foi lançada a cabeça de ponte derradeira. O deputado Jair Bolsonaro voltava sorridente a frequentar os quartéis para fazer a campanha política mais inadequada de que se tem notícia na história do Brasil.

Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”, dizia a primeira postagem do general Eduardo Villas-Bôas (comandante do EB entre 2015-2019), feita no dia 3 de abril de 2018 no Twitter. A postagem polêmica, um petardo vindo diretamente do coração das Forças Armadas, foi interpretada por grande parte da imprensa e de estudiosos do tema, como uma pressão inapropriada e totalmente indevida, exercida contra o Supremo Tribunal Federal, que julgava o ex-presidente Lula por crimes de corrupção. Em uma segunda publicação na rede social, dirigida aos “cidadãos de bem” (típica abstração sem pé nem cabeça matraqueada pelo deputado Bolsonaro) o general, assoprando depois de morder, dizia que o EB “estava atento às suas missões institucionais”. Dois meses depois, foi lançada a campanha de Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República, com o slogan da Brigada de Infantaria Paraquedista (Brasil acima de tudo) “gentilmente cedido” pelo Exército Brasileiro, sem nenhuma ressalva do Tribunal Superior Eleitoral.

Geisel queixou-se de que não havia militares suficientes no Congresso na década de noventa. Hoje, só no Executivo, há mais de seis mil fardados (ou de pijama) “aparelhando” a Administração Federal. Na conveniente e oportuna picada aberta pelo “mau militar”, oficiais generais das três Forças revezam-se nos pináculos do leviatã nacional, grande parte deles sem competência técnica legal para ocupar tais cargos, alguns inclusive bastante sensíveis, e que, num governo sério, jamais seriam ocupados por alguém sem as mais altas qualificações.

Descendo a escadinha hierárquica pode-se encontrar do coronel ao sargento, acocorados um e outro em cargos milionários ou em postos singelos como os antigos, agora ressurretos, bedéis, que disciplinarão nossas “gerações futuras” nas escolas cívico militares. Já se pode notar influências dessa blitzkrieg diluída no tempo. O caso mais descarado ocorreu na gestão da pandemia de coronavírus, em que um general (pelo insuspeito fato de ser general) encarnou o papel de ministro da saúde num dos momentos mais graves da crise. Há relatos de historiadores que estão tendo trabalhos acadêmicos “congelados” porque questionam a ditadura militar de 64 por um viés antigovernista. Um coronel da reserva abertamente crítico à politização dos militares e à regência (informalmente) empossada afirmou recentemente em rede social ter sido proscrito de um debate público por um reitor de uma universidade por supostamente ser ele, o coronel, um “militante petista”.

Os frutos surgem nos mais diversos campos. Um em especial promete ser o pomo de ouro da semeadura. Recentemente em uma sessão na Câmara dos Deputados, um deputado da chamada esquerda radical perguntou a um deputado da base governista (ultra direita) – que insiste em usar a designação de general – se era justo que o governo Bolsonaro remunerasse com mais de duzentos mil reais mensais o diretor da Petrobrás (outro general), enquanto inativos e pensionistas das Forças Armadas, em sua maioria praças, tiveram direitos usurpados e prejuízos em seus salários. O general sem soldados, deputado sem povo, não respondeu e encerrou laconicamente a sessão.

Uma frase lapidar do general Peri Bevilacqua, que não se metia a fazer politicagem, limitando-se a ser um bom soldado, poderia ser o dístico da regência de chumbo: Quando a política entra no quartel por uma porta, a disciplina e a sensatez saem pela outra“.

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