sexta-feira, 8 de abril de 2022

Os porões do submundo (estendido)

            Neste momento em que Europa e Ásia estão dando sinais de que vão precipitar o mundo inteiro no abismo de uma guerra que, se estourar, pode ser a derradeira, é oportuno e conveniente fazer uma reflexão breve sobre as imbricações entre militarismo e política, que em última instância são os responsáveis finais pelos conflitos armados. No Brasil, demagogia, populismo e um flerte recorrente com o autoritarismo vêm protagonizando casos de uma perigosa promiscuidade entre alguns elementos das Forças Armadas e o poder político. Um efeito indébito disso pode ser detectado na reestruturação da carreira militar, que prejudicou sensivelmente uma parcela significativa de componentes das camadas inferiores da hierarquia, justamente os que demandariam especial proteção do Estado. Seja no macrocosmo da guerra seja no microcosmo das burocracias da caserna, os mais fracos invariavelmente se prestam a ser vítimas de políticas de exceção, que em geral começam a ser postas em prática nos círculos de menor representatividade política do próprio Estado.

Entre os quatro cavaleiros do Apocalipse, peste, fome e morte, a guerra é a única que demanda uma reunião de indivíduos organizados em exércitos. Ninguém caminha organizadamente para a morte ou voluntariamente se atira aos braços da peste. Só a guerra tem essa flauta encantada que toca a iniludível melodia do patriotismo, do amor ao solo, do orgulho ferido e da honra aviltada. Os que não dançam ao seu som sibilino são covardes, egoístas, antipatriotas. Equivocadamente ou talvez por calculada má fé, evoca-se o passado medieval com suas fábulas arabescas como repositório do espírito patriótico justificador das guerras. Nada mais ilusório. Segundo o historiador militar Michael E. Howard, a guerra era um negócio privado dos reis, e, ao contrário do que os amantes de um mito inexistente querem fazer crer, a boa economia da época ditava que o “bom cidadão deveria ser deixado em paz para construir a riqueza com que pagaria os impostos”. As guerras totais, com suas estratégias de propaganda, seus alistamentos cada vez mais invasivos, são fruto da democracia moderna e dos interesses dos grandes parasitas empresariais. Guerra e capital unidos em prol de infernizar o mundo…

Se por um lado a democracia atual olha com desdém para o passado dos reis, apresentando-se como uma evolução política, por outro lado, a guerra deixou de ser um assunto real para ser um flagelo nacional, e como tal, suportado “democraticamente” por todos, voluntários ou não, pacifistas ou não. Inconcebível e paradoxal portanto uma força armada democrática. “Assim como é em cima é embaixo”. Se no âmbito da guerra a coisa é escatológica, num andar mais abaixo, ela não melhora muito. E quando o militarismo se deita com a politicagem, na certa o relacionamento é tóxico, e os casos de pornografia politica reinam.

Há três anos a máquina pública brasileira está infestada com mais de seis mil militares, entre ativos e inativos (os “aposentados” da classe). Quando se ocupa as engrenagens desse sistema de maneira artificial por uma classe específica, de cima para baixo, não por decorrência de capacidades comprovadas ou mérito reconhecido, mas simplesmente por imposição política, como quem está tomando os espólios de uma guerra, o resultado é o desvirtuamento tanto da boa administração quanto da própria imagem da classe invasora. Em recente diretriz ministerial a pasta da Defesa, responsável pelas três Forças singulares, baixou a “ordem do dia” para as comemorações do bicentenário da independência do Brasil. Entre tantas amenidades que já arrancam suspiros de ufanistas saudosos e de integralistas enrustidos há desde o direto e eficaz populismo mais vulgar do tipo “prestação de serviços de saúde [e] orientações médico-odontológicas” até a fina flor da doutrinação mais descarada como “promover apresentações em escolas assistenciais e da rede pública, seminários e exposições abertas à sociedade, com o objetivo de rememorar fatos históricos relacionados à Independência do Brasil”, passando pela “restauração de monumentos e bustos de heróis da pátria, a fim de fortalecer e valorizar o sentimento cívico da nação”. Já podemos suspeitar sob que prisma os fatos históricos serão rememorados e quais heróis serão cultuados… Em ato de virtual pré-campanha, o presidente Bolsonaro, como boa caixa de ressonância da Regência de Chumbo, fez questão de exaltar a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça brasileira como torturador em 2008, chamando-o de “‘velho amigo”... Será dessa vez que a estátua do Almirante Negro, João Cândido Felisberto, será posta na praça Mauá, em frente ao comando da Marinha? Sempre há uma chance…

Por trás da fachada do estado democrático, a máquina militar necessariamente perpetua o modelo milenar de submetimento de seus componentes. E quanto mais se desce pelos porões desse submundo, quanto mais aproximamos as lentes dessa microcultura, mais nítido fica que a “milítica”, a mistura imoral da política com as armas, é o fim da picada republicana. Não se torna democrata um militar por lhe tirar a farda e emprestar-lhe um discurso demagogo. É mais fácil, e é mesmo o que se pretende, que a democracia seja engolida pelo militarismo. A militarização da sociedade, e não o contrário disso, é o que buscam os “milíticos”, este é o santo Graal dessas pessoas. Isso é uma tese. Segue um indício que pode servir de demonstração.

A reestruturação da carreira militar, concretizada por lei federal em 2019, atirou às favas o princípio estatutário da hierarquia militar - hierarquia não é perfumaria, é lei. Por meio de artimanhas, a base governamental - sempre assessorada por militares do alto escalão das Forças Armadas - ludibriaram os parlamentares responsáveis por fazer valer a ordem constitucional vigente. Subvertendo a lógica férrea da disciplina da caserna, os mesmos generais, que hoje pretendem militarizar a sociedade, em audiência gravada, relativizaram os direitos seculares dos militares inativos, sustentando que uma meritocracia tirada da cartola, e não mais a hierarquia, seria o parâmetro da reestruturação. Criaram ali naquele momento o primeiro caso particularíssimo do homo sacer militaris.

Homo sacer”, do latim “homem sagrado” é um instituto do antigo direito romano que enquadra o homem que, tendo cometido um crime contra a divindade, põe em risco a “pax deorum”, perturbando o bom relacionamento entre os homens e os deuses, prejudicando assim a prosperidade da cidade. Isso era entendido como um delito contra o próprio Estado. O criminoso era excluído do grupo social, perdendo seus direitos de cidadão. O homo sacer podia inclusive ser morto, sem que isso configurasse um assassinato. Ele era um subcidadão. Ora, guardadas as devidas proporções, quando as associações de inativos foram às audiências públicas em Brasília fiscalizar o projeto de lei de reestruturação da carreira militar, como qualquer cidadão ou classe profissional pode e deve fazer, confrontando os generais em campo minado, estavam nada mais nada menos do que perturbando a paz dos “deuses” “milíticos”. As mudanças na carreira pareciam apenas um subterfúgio para que se aumentassem exclusivamente os salários da cúpula, às custas da base. Uma vez que os habitantes dos porões tumultuaram a “paz” entre políticos e generais, foi de bom tom que se concedesse às baixas patentes da ativa uma maneira de se beneficiarem de algo que originalmente não lhes estava destinado. Mas, àqueles que ousaram ir ao Congresso Nacional foram dados numa bandeja de prata desprezo moral, processos disciplinares, difamação, prejuízo salarial, enfim, um grupo particular de milhares de servidores da Pátria, tão bons como quaisquer outros, tornou-se sem nenhum motivo republicano razoável, que não a vingança institucional mais reles, um grupo de párias dentro das fileiras das Forças Armadas.

Sabemos o que acontece quando os governos se militarizam. A história brasileira recente é pródiga de exemplos. Após o golpe de 1964, a primeira instituição a sofrer expurgos foram as próprias Forças Armadas. Limpar a casa, eliminar as dissidências. O caso da reestruturação pode ser uma amostra do que um governo bastardo, cria de uma simbiose anormal entre revanchismo classista e ambição pessoal, pode ter reservado para a sociedade civil. Um setor considerável da Família Militar está sentindo na carne o que é servir de homo sacer para ser deixado à mercê da vingança dos deuses.

O Antipresidente e a eleição do fim do mundo

“Adapta tua maneira de ser e tuas palavras àquele com quem estás lidando. Aos avarentos, fala de prejuízos e lucros, aos devotos, de Deus e de Sua maior glória, aos jovens vaidosos, de sucessos prováveis e humilhações possíveis.”

Breviário dos políticos, de Jules Mazarin

  

Dizem que o brasileiro é conservador por natureza. Quer conservar ao máximo tudo o que pode. Mas, não é que seja puro moralmente, muito menos puritano, mas sim que lhe falta alma “revolucionária”. Não gosta de mexer no que está quieto, mesmo que aquilo que “está quieto”, esteja na verdade bem ativo e lhe prejudicando. Em sua ânsia mórbida de justificar a consciência entorpecida, inventou que Deus é brasileiro, como a depositar às costas do Criador Supremo os fardos que ele, o brasileiro, deveria carregar e deles se desembaraçar com seu próprio suor. Sua modorra mental, claro, reflete-se em apatia política. Como não gosta de mudar (achando-se um conservador ideológico, quando de fato não passa de um preguiçoso moral) tende invariavelmente a reeleger mandatários políticos. Nesse espírito ou na falta dele, só para ficar no Planalto, o brasileiro reelegeu Fernando Henrique Cardoso, reelegeu Lula da Silva, reelegeu Dilma Roussef, e se pudesse reelegeria Michel Temer - e durante esses governos a lamúria era diária. Não é de todo sua culpa, já que a democracia é como aceitar carona de um motorista cego numa noite chuvosa. É ficar morrendo na estrada ou tentar não morrer na pista.

Há seis meses das eleições para presidência da República, os ânimos estão se acirrando e a sensação é de que os últimos três anos se passaram num ringue de luta livre. Estaremos caminhando rumo a algum tipo de paz? Não parece. Na verdade, o horizonte está mais nublado ainda do que em 2018. Escancarou-se o fosso aberto pela radicalização ideológica. Em recente discurso, o atual antipresidente - título que lhe cai como uma luva, já que foi eleito majoritariamente com os votos antipetistas - declarou que o Ministério da Defesa é a pasta que “mais se destaca” (aos olhos e necessidades dele obviamente), pois “tem a tropa em suas mãos” e que (ele e o) ministério (!) poderá fazer o país “retornar à normalidade, ao progresso e à paz”. Ora, que tipo de anormalidade estaríamos vivendo? Seria a gasolina a quase R$10,00? O gás de cozinha a R$110,00? Não deve ser. Ele não diz. Aliás, ele quase não diz nada, apenas fala. E sua fala não é direcionada à razão, ele não fala para o povo brasileiro, mas sim para um povo particular, o seu séquito de aduladores, e a estes não fala com palavras, mas com inconsistências. Ele fala para os clubes de tiro, que lucram com a promessa de que “povo armado não será escravizado”, ele fala para os acionistas da Petrobrás, que dispensam adjetivos, ele fala para os generais, que preferem seus cavalos ao povo, ele fala para a malta dos endinheirados que ficaram ainda mais ricos durante a pandemia.

Se as administrações anteriores fizeram do roubo a sua pegada de carbono, este governo ostenta o estandarte do cinismo, enquanto derruba o que sobrou. Enquanto a imprensa se distrai com as piadas neandertais do antipresidente, “instituições financeiras investiram R$ 270 bilhões em mineradoras com interesses em terras indígenas na Amazônia”. A desculpa (esfarrapada, pois desmentida por informações do próprio governo) é que “o Brasil poderia ser autossuficiente em insumos que vêm de países europeus, caso possa haver mineração nas terras indígenas”. Assim como a lenda do nióbio esteve para 2018, a lorota do potássio estará para 2022. E o povo engole com leite que o índio (palavras   antipresidenciais) “cada vez mais é um ser humano igual a nós”. É o governo do desmonte e da destruição. A reforma da previdência beneficiou as cúpulas, puxando o tapete das bases trabalhadoras. A reforma trabalhista não gerou mais empregos, e só o que faz é flertar com o neoescravismo. Em três anos o Ministério da Educação não pára de patinar. O que isso significa? O recado é subliminar e oblíquo, mas incisivo. A educação não importa para este governo. Está em curso investigação de corrupção no MEC, enquanto há crianças de oito anos no Brasil, obviamente pobres, que, em pleno século XXI, não sabem ler.

As promessas de governo que não foram cumpridas, devem ser recicladas para a campanha da reeleição. O antipresidente contará com a leniência do povo, que ele conhece muito bem. Do povo que ele não se esforça por educar, do povo que ele faz questão de desprezar diariamente, do povo que ele sugeriu se contaminar pela covid19, já que não passava de uma “gripezinha”. Do povo pacífico que tem saudades da ditadura, e que, como o antipresidente, defende a tortura como pedagogia. Um povo que é contra o aborto, mas que clama pela pena de morte. Um povo que é por Deus e pela família, mas que culpa a saia pelo estupro, e é fã de justiçamento (não de justiça, pois esta pode ser cega). É a sociologia da barbárie, o império da brutalidade e a apoteose dos violentos. Um povo, que de tanto ver triunfar as iniquidades, disputa entre tapas um lugar entre os desonestos, um povo, que de tanto ser massacrado, aprendeu a apreciar o massacre por si só.

Um saco vazio de promessas, o antipresidente se apresentará em outubro assim como é. Nu, sem retoques e sem moderação, com o liberalismo predatório à direita e as Forças Armadas, este golem desfigurado, à esquerda, ambos presos pela coleira. Pedirá mais quatro anos para poder governar e terminar o serviço (que, aos crentes de sua seita, é sua “missão”). Ele está no seu meio. Sabe, não por intelecção, pois é carente deste atributo, mas por instinto, que este povo que o elegeu como o “moralizador” do país, tem vários motivos irracionais para perpetuá-lo no poder, pois é um povo historicamente hipócrita, moralmente indeciso e antes de tudo inimigo de si mesmo.

JB Reis

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sábado, 2 de abril de 2022

Entre o cão e o carcará

A eterna via crucis de um povo

Esta semana que se encerra trouxe um sinal contundente de que a república brasileira é de fato um vasto bananal administrado por proxenetas. Não precisamos repisar tudo que já foi dito sobre a última jogada suja do “Supremo Foro de São Paulo”. A manobra estapafúrdia, que surpreenderia o burocrata comunista mais cara de pau, se não livrou o ex-sindicalista mor da cadeia, tornou-o novamente elegível, reabrindo a tampa dos infernos, que pensávamos estar selada para sempre. Mas como dizem, o Brasil não é um país sério. Bolsonaro, que não soube cumprir o papel que a História lhe reservou, vê-se agora numa luta reles por sobrevivência política em que sua vitória pode ser o menor dos males.

Segundo Eduardo Bueno, em seu livro a Viagem do descobrimento, “o nome ‘Brazil’ provém do celta bress, que deu origem ao verbo inglês to bless (abençoar). “Hy Brazil”, portanto, significa ‘Terra Abençoada’”. É muito dito que o Brasil seria o “coração do mundo”, o “celeiro do planeta”. Graças à Monarquia, o Império não se pulverizou entre miríades de micronações como aconteceu com a América espanhola e o resultado foi um território sem paralelo entre latitudes privilegiadas do globo terrestre. Além da abundante água visível, o maior aquífero do planeta, o Guarani, está em solo brasileiro.

Contraponto a todo esse cenário paradisíaco, o Brasil conta com Forças Armadas que, de acordo com  autoridades no assunto, estão muito aquém de cumprir com mínima eficiência a missão de defender seu território. Materialmente sucateadas, profissionalmente desmotivadas, quantitativamente deficitárias, e atualmente em franca desestruturação por força da Lei nº13.954/19, que mostrou que só uma categoria, os oficiais, são considerados militares de primeira classe, e todo o resto é acessório, as Forças singulares não fariam frente a um inimigo mais audaz.

Bolsonaro foi o oportunista falastrão que se apoderou, ou foi “empoderado”, como o homem da direita brasileira. Uma máscara – a única que ele não se importa de usar –, que em dois anos de governo já caiu. Mas, conquanto seja um arremedo do que deveria ser, um moralizador da política (missão para a qual já se mostrou incapaz), ele ainda encarna, ou pelo menos representa, a possibilidade de ressurreição de um moribundo conservadorismo brasileiro. Há, claro, os bolsonaristas de chão de fábrica, os peões desse jogo. Estes apenas babam palavras inúteis como toda horda descerebrada. Outros, porém, mais acima no espectro, apoiam o Presidente, não por méritos dele (quais seriam, afinal?), mas porque ele poderia galvanizar um movimento conservador nacionalista, e quem sabe, conjurar um líder preparado para um futuro que parece nunca chegar.

Contra isso, contra essa possibilidade – ainda que remota – não contra Bolsonaro (ele foi um trocadilho imperdoável, mas necessário da História), mas contra a verdadeira consciência patriótica brasileira – não o teatrinho cívico dos generais – insurgem-se as potências globalistas. À testa desse aríete irrefreável, o pretensioso conquistador eurasiano, a China.

Temos então uma equação aqui, no primeiro termo: um povo moralmente combalido “de tanto ver triunfar as iniquidades”, um território que é uma mina inesgotável de recursos, um exército de papel e uma classe político/jurídica quase totalmente corrompida e de apetite insaciável por tudo o que é putrefato. No segundo termo da equação: a China comunista, ditadura de partido único; armada até os dentes; um povo praticamente todo cooptado (“cada cidadão um soldado”, Mao Zedong) e uma sanha louca por suplantar o número um do mundo.

Os negacionistas dirão que os interesses chineses são exclusivamente comerciais. Já expusemos aqui neste site o vade mecum da estratégia chinesa para este século. O livro “A Guerra além dos limites” dá um quadro geral do que seriam (e após vinte anos, vemos que estão se cumprindo à risca) as pautas imperialistas do Partidão. Ora, não é preciso ser doutor em História para ver que um Brasil desmoralizado, de juventude entorpecida, com exército sucateado, de instituições político-jurídicas carcomidas e instáveis, seja o campo ideal para fincar a bandeira vermelha. Mas, num primeiro momento, não com tanques e mísseis. Nada disso. Terras serão compradas¹, acordos comerciais serão assinados – por mãos míopes que não lerão as letras miúdas. O Brasil não é o Iraque. O Brasil é uma joia rara e delicada. Precisa ser “tratado” com jeito. Guerra cultural seria realmente teoria conspiratória? Não para a frente parlamentar Brasil-China, que, longe de alimentar nossa desconfiança sobre esse tema, está aí para nos lembrar quão importante é, durante a pandemia do vírus chinês, comemorarmos por via legal (PL 300/2021)² o ano-novo chinês.

Lula da Silva é antes de tudo um comunista. Ele e toda a gangue que o cerca. Que melhor cenário político poderia haver para o PCC do que ter na presidência da maior nação sul-americana um coidealista? Não é necessário olhar o passado, pois no Brasil até o passado é duvidoso. O futuro que nos espera, pode ser mais sombrio do que tudo que já passou. Guiado pelos nove dedos de Lula, e seguido de perto pelo tigre asiático, o Brasil poderá ser a semente daquilo que Michel Temer gravou em 1988 no § único do Art. 4º da Constituição da República, “uma comunidade latino-americana de nações”, isto é, a famosa Pátria Grande³.

Difícil neste período da quaresma cristã, não fazer um paralelo com a via crucis. Por mais que tente, por mais que repetidamente este país se erga, invariavelmente a História lhe desfere um novo golpe, cada vez mais forte, mais definitivo. O Brasil agora parece estar subindo o seu calvário, a caminho da  crucificação entre o cão e o carcará.

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https://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/senado-terras-estrangeiros/

https://diariodorio.com/deputados-e-autoridades-da-china-defendem-plei-que-inclui-ano-novo-chines-em-calendario-nacional/

https://medium.com/@loryelrocha/a-p%C3%A1tria-grande-o-foro-de-s%C3%A3o-paulo-a-banca-e-o-eurasianismo-4d7915b41c51

Os Porões do submundo


Num momento em que guerras e rumores de guerras inundam os noticiários, seria  oportuno fazer uma reflexão breve sobre as imbricações entre militarismo e política, que em última instância são os responsáveis finais pelos conflitos armados. Há atores ainda mais obscuros que atuam por trás dessa trama, mas esses dois são os mais perceptíveis a “olho nu”. No Brasil atual, demagogia, populismo e um flerte recorrente com o autoritarismo vêm protagonizando casos de uma perigosa promiscuidade entre as
 Forças Armadas e o poder político.

Numa época em que a propagação da informação é fácil e barata, palavras soltas ao vento podem se transformar em tempestades, que a História certamente porá na conta dos militares.

Equivocadamente ou talvez por calculada má fé, evoca-se o passado medieval com suas fábulas arabescas como repositório do espírito patriótico justificador das guerras. Nada mais ilusório. Segundo o historiador militar Michael E. Howard, a guerra era um negócio privativo dos reis, e, ao contrário do que os amantes de um mito inexistente teimam fazer crer, a boa economia da época ditava que o “bom cidadão deveria ser deixado em paz para construir a riqueza com que pagaria os impostos”. As guerras totais, com suas estratégias de propaganda, seus alistamentos cada vez mais invasivos, são fruto da democracia moderna e dos interesses dos grandes parasitas empresariais. Guerra e capital unidos em prol de infernizar o mundo…

Se por um lado a democracia atual olha com desdém para o passado dos reis, apresentando-se como uma evolução política, por outro lado, a guerra deixou de ser um assunto real para ser um flagelo nacional, e como tal, suportado “democraticamente” por todos, voluntários ou não, pacifistas ou não. “Assim como é em cima é embaixo”. Se no extremo da guerra a coisa é escatológica, num andar mais abaixo, não há muita diferença, e quando o militarismo se deita com a politicagem os casos de pornografia politica reinam.

Há três anos a máquina pública brasileira está infestada com mais de seis mil militares, entre ativos e inativos (os “aposentados”). Quando se ocupa as engrenagens desse sistema de maneira artificial por uma classe específica, de cima para baixo, não por decorrência de capacidades comprovadas ou mérito reconhecido, mas simplesmente por imposição política, como quem está tomando os espólios de uma guerra, o resultado é o desvirtuamento tanto da boa administração quanto da própria imagem da classe “invasora”.

Em recente diretriz ministerial a pasta da Defesa, responsável pelas três Forças singulares, baixou a “ordem do dia” para as comemorações do bicentenário da independência do Brasil. Entre tantas amenidades, que já arrancam suspiros de ufanistas saudosos e de integralistas enrustidos, há desde o direto e eficaz populismo mais vulgar do tipo “prestação de serviços de saúde [e] orientações médico-odontológicas” até a fina flor da doutrinação mais descarada como “promover apresentações em escolas assistenciais e da rede pública, seminários e exposições abertas à sociedade, com o objetivo de rememorar fatos históricos relacionados à Independência do Brasil”, passando pela “restauração de monumentos e bustos de heróis da pátria, a fim de fortalecer e valorizar o sentimento cívico da nação”. Já podemos suspeitar sob que prisma os fatos históricos serão rememorados e quais heróis serão cultuados… Em ato de virtual pré-campanha, o presidente Bolsonaro, como boa caixa de ressonância da Regência de Chumbo, fez questão de exaltar a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça brasileira como torturador em 2008, chamando-o de “‘velho amigo”…

O que um governo bastardo, cria de uma simbiose anormal entre revanchismo classista e ambição pessoal, pode ter reservado para a sociedade civil? Em discurso recente sobre eleições e apuração de votos, o presidente da República, que foi militar por quase vinte anos, afirmou de modo bastante exaltado que uma entidade incerta, à qual ele se referia como “nós”, defenderá a democracia e a liberdade, se preciso for, “com o sacrifício da própria vida”. Este trecho entre aspas é um lema conhecido dos militares pois é parte do juramento que todos eles fazem à bandeira nacional, dentro de um contexto especial, quase solene. Não é uma frase de parachoque de caminhão a ser usada como estimulação de condutas potencialmente danosas.

Sabemos o que acontece quando os governos se militarizam. A história brasileira recente é pródiga de exemplos. E quanto mais se desce pelos porões desse submundo, mais nítido fica que a “milítica”, a mistura imoral da política com as armas, é o fim da picada republicana – é bom não esquecer que a República nasceu de um golpe militar. Não se torna democrata um militar por lhe tirar a farda e emprestar-lhe um discurso demagogo. É mais fácil, e é mesmo o que se pretende, que a democracia seja engolida pelo militarismo. A militarização da sociedade, e não o contrário disso, é o que buscam os “milíticos”, este é o santo Graal dessas pessoas.

O tempo dirá qual das duas instituições sobreviverá de pé a este intercurso indesejável, a democracia ou a caserna.

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O Grande moinho de vento


Observando com os olhos da razão as últimas agitações na mídia e nas redes, poderíamos ser levados a pensar que o Brasil está numa espécie de conflagração ideológica. O Presidente da República, do alto de sua moral de filho do centrão, declarou guerra às urnas eletrônicas. As batalhas, por enquanto, têm lugar no mundo das ideias e no universo da infosfera, mas esperamos de coração que isso se desmanche no ar, pois as piores guerras são as guerras santas, as que têm um motivo “justo”, e  ‒ na moda de hoje ‒ aquelas feitas “em nome da democracia”. Mas, toda guerra tem algum lucro para quem a provoca, e quase nenhum para os idiotas úteis que pegam em armas.

O novo moinho de vento de Bolsonaro se chama “voto impresso”. Já houve vários: kit gay, cloroquina, ameaça comunista, armamentismo. Todas podem ser pautas populares legítimas, mas ele as sequestrou e fez delas seu pobre “capital” político. Sem dúvida que o cidadão comum, caso queira, deveria ter direito a auditar um ato seu que interfira na sua própria vida. Mas, esta é uma pauta tão legitimamente bolsonarista quanto a estratosfera é exclusividade dos tucanos. Novamente ressaltamos aqui o estofo moral do Presidente, ao detectar que ele não se rebelou contra o “sistema” em 2018, mas esperou ser eleito pela mesma urna que agora ataca, e tão logo sua governança destrambelhou, tirou essa “carta” da manga. Isso é administração ou bingo de quermesse?… Voto de papelzinho deveria ser a última coisa na lista de prioridades de um governo em apuros, e ainda mais de um povo combalido moralmente e arrasado materialmente pela peste chinesa. Já são milhões de desempregados, muitas empresas dando as costas ao País, e nós declaramos guerra ao império da razão, insurgindo-nos contra a cortina de fumaça bolsonarista da urna eletrônica.

Qual é o graal dessa jihad política? Um pedacinho de papel ordinário, que vai atestar para todos os fins (insondáveis, por sinal) a qual cangaceiro de gravata delegaremos o poder de nos tapear pelos próximos quatro anos. A primeira dúvida que nos vêm à cachola é quão “democrática” é a nossa democracia, a ponto de nos preocuparmos tanto com um pedaço de papel… Ela é tão democrática quanto é democrático o voto obrigatório? A nossa democracia é fruto de um golpe (antidemocrático) dado por um general cabrão, que abominava o povo como quem prefere cheiro de cavalo. Nossa democracia é a mesma que exilou o último filho ilustre, único imperador dessa terra ingrata, ao qual sobejava cultura e amor pelo País (coisa inexistente em quase todos os seus sucessores). Brigamos no Twitter ou nos fantasiamos pelas ruas aos gritos em defesa dessa democracia que, desde o ninho de onde foi parida, sempre foi uma oligarquia, sempre foi uma farsa costurada por jagunços de algibeira, ora café com leite, ora leite com café. Uma democracia que pouco tem de demos, mas muito tem de daemon.

 O Estado democrático pode ser tão invasivo e violento quanto qualquer outro, e como não temos uma sociedade alternativa, a democracia carece de válvulas de escape. Uma delas é o accountability, isto é, a capacidade de prestar contas. Quanto mais transparente aos olhos do povo, mais democrática é a democracia. Mas não se assanhe o leitor, essa transparência é fosca e o vidro está sujo. Queremos o papelzinho exatamente porque somos cidadãos de papel, filhos bastardos de um país de papel. Também porque não temos memória, porque não temos raízes profundas, porque nossa nação não foi resultado de uma fundação sólida, e vivemos repetidamente ‒ já fizemos isso antes ‒ sendo arrastados feito zumbis para a dimensão perigosa do culto à personalidade. E que personalidade…

Terminamos com o pé esquerdo. A culpa não é exclusivamente do Bolsonaro, é do PT também. Sejamos sinceros, nunca este país foi bem governado, mas depois que o proletariado petista subiu a rampa do Planalto e decidiu pegar a chave do cofre, a coisa degringolou de vez. De lá para cá, conduzir os destinos políticos da nação tornou-se mais do que tudo um espetáculo. Já não é necessário pão e circo, a fúria é suficiente, o pão a gente vê depois. Bolsonaro está seguindo a política do “quanto pior melhor” e do “quero ver o circo pegar fogo”, não só por que ele faz disso a sua yoga. Essa bêbada dança do sabre é a segunda temporada de um continuum esquerdista. Lula e sua trupe (des)governou pela cleptocracia. Bolsonaro governa (ou o que quer que seja isso que ele está fazendo), como fez Nero, pela  ignocracia.

Ao descobrirem as atrocidades de governos ditatoriais, uma das primeiras perguntas que as pessoas fazem é: “como o povo pôde permitir e ainda colaborar com elas?” Mas não se pode voltar no tempo, e mesmo as testemunhas oculares têm seus pontos cegos… As ditaduras consentidas são um primeiro passo para os regimes de exceção, e elas começam não por absurdos etnocêntricos ou apostasias escandalosas. Começam com pautas democráticas, palavras vazias, mas doces aos nossos ouvidos famintos. Quem pode ser contra Deus e armas? Quem pode ser contra família e pátria!? Afinal, quem pode ser contra o voto impresso!? E, por fim, quem não reza pela cartilha tresloucada do “mito” está contra nós? Bons tempos em que o Brasil era um país bem humorado que não se levava a sério e o candidato mais bem votado era o macaco Tião…


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quarta-feira, 30 de março de 2022

O Grande Amigo de Deus



O Grande Amigo de Deus

Taylor Caldwell

Há vinte anos li "Médico de homens e de almas", de Taylor Caldwell. Ótima a biografia romanceada de São Lucas. O Grande... é a mesma coisa.

Poderia ser um livro inspirado pelo Alto? Sim. Nem todos os escritores são tecnicamente "canais" de informações supramentais, entendidas como aquelas contidas nos arquivos interiores, suprafísicos da história da humanidade. Pode ser apenas a obra de uma meticulosa pesquisadora e hábil escritora? Também pode. Mas, lendo superficialmente a vida de TC, (coisa que agora é bem mais fácil de fazer do que em 1999!) descobri que ela "escreveu sua primeira novela, O Romance de Atlântida, aos 12 anos". Claro que isso não prova nada - muitos artistas são precoces - mas a força autêntica que reside em sua narrativa me leva a conjeturar um caso de conexão, talvez inconsciente, mas direta, com a verdadeira biografia de Paulo de Tarso.

Os que são amantes da literatura meramente romanesca certamente aprovarão o livro. É muito bom. Os que (como eu) procuram na vida dos Santos uma pista do que os tornou santos também vão apreciá-lo.

É a história de um ser humano corajoso, humilde (naquele sentido pouco usual da palavra), ao mesmo tempo fraco (e reconhecedor de sua fraqueza), que levanta quantas vezes for preciso para executar da melhor forma sua missão.

Diz-se que o Cristianismo na verdade é um Paulismo travestido. Se a história contada neste livro for próxima da verdade, talvez se possa especular que tenham existido outros atravessadores (intérpretes, etc.) da Doutrina original do Cristo além do Leão de Deus.

Gelo seco


O Espírito Militar

Celso Castro